Marcha do delírio

iG Minas Gerais |

Freud, no texto “O Futuro de Uma Ilusão”, no qual faz críticas às doutrinas religiosas, estabelece uma diferença entre erro, ilusão e delírio. O primeiro, segundo o criador da psicanálise, seria baseado em observações ou metodologias equivocadas, enquanto os dois outros conferem ao desejo do homem um papel fundamental em suas elaborações. Em outras palavras, na ilusão e no delírio, o desejo exacerbado pela realização ou ocorrência de alguma coisa deformaria a percepção do indivíduo. A distinção de ambos se daria pelo fato de nos delírios, entre outras coisas, o pensamento se desenvolver em contradição à realidade, enquanto a ilusão não precisa ser necessariamente falsa ou irrealizável. As manifestações convocadas para o próximo sábado por grupos de direita, principalmente via redes sociais, só podem ser entendidas dentro do conceito freudiano como um delírio psiquiátrico. Batizadas de Marcha da Família, em alusão ao movimento da classe média em apoio ao golpe militar, em 1964, elas propagam, assim como naquela época, a ideia da iminência de um golpe comunista. Encabeçadas na maioria das vezes por militares reformados, essas facções afirmam estar sendo tramado nos corredores do Palácio do Planalto, em conluio com os partidos da chamada esquerda brasileira (PT, PSOL, PCdoB, PSTU...), uma revolução vermelha. Nas redes sociais, em especial no Facebook, há inúmeras páginas se autodenominando como a oficial da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O conteúdo de todas é igual: em meio a expressões como “fascismo vermelho” e “não aos comunistas”, brotam pedidos de impeachment de Dilma, piadas preconceituosas em relação ao ex-presidente Lula e críticas a acordos e parcerias fechadas pelo governo brasileiro com países como Venezuela e Cuba. Apesar do barulho e da possibilidade de reunirem meia dúzia de gatos pingados, os eventos programados para sábado são completamente desconectados com a realidade brasileira. Mesmo com as bem-vindas manifestações de junho e julho do ano passado e com a previsão de novos levantes para este ano, principalmente durante a Copa do Mundo, o país está longe de uma revolução, seja ela vermelha, branca ou de qualquer outra cor. O governo da presidente Dilma Rousseff e o PT hoje estão mais próximos ao centro, e seus programas pouco diferem dos demais partidos de posição reformista. Outros grupos de direita mais acanhados programam manifestações mais discretas para celebrar os 50 anos da “revolução cívico-militar de 31 de março de 1964”. Mesmo se tratando de delírios, todos esses movimentos devem ser levados a sério pela sociedade brasileira, pois manifestam o desejo latente de parcelas da população de reviver práticas condenáveis como censura, tortura e assassinatos patrocinados pelo Estado – ações comuns ao regime militar vigente no Brasil entre 1964 e 1985.

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