Acho pouco e bom!

iG Minas Gerais | Luiz Cabral |

Band/Divulgação
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A briga está boa! Legal e desleal, pra dizer a verdade. Desde o início do mês, Band e SBT estão se engalfinhando por pontos na audiência da madrugada, mas o canal de Silvio Santos tem levado a melhor com folga. É que, no último dia 5, Rafinha Bastos estreou na Band com o “Agora É Tarde”, programa que era de Danilo Gentili, que saiu da Band e, desde o dia 10, apresenta um talk-show parecido com o de Rafinha no SBT, o “The Noite”. Pelo fato de os dois programas serem praticamente iguais, há de se questionar por que o de Gentili teve quase seis vezes mais audiência que o de Rafinha em alguns dias da semana passada. Só tenho uma coisa a dizer: acho pouco e bom.

Os programas são realmente parecidos: ambos começam à 0h durante os dias de semana (o “Agora É Tarde” só não passa na segunda-feira por causa do “CQC”, humorístico que lançou os dois apresentadores para a grande mídia), os cenários são quase idênticos, com mesa para o apresentador, poltrona para os entrevistados, bandinha em um canto, auditório no outro, tudo bem no estilo talk-show de Jô Soares e de tantos enlatados norte-americanos. Fazem sucesso por lá, por que não iriam fazer por aqui? Tem também os comediantes que ajudam os mediadores, os quadros e esquetes engraçados que dão fluência aos blocos televisivos, e aquelas velhas piadinhas sem graça, e que às vezes são até boas, que os dois já fazem tão bem, desde os tempos do “CQC” ou das maçantes peças de stand-up comedy.

Dá pra ver que os programas são os mesmos, em emissoras distintas, se não fosse um pequeno grande detalhe, que tem feito a tal diferença no Ibope: a simpatia e aceitação do apresentador com os telespectadores. O talento dos dois é inegável. Rafinha Bastos e Danilo Gentili têm o poder da improvisação, da piada rápida, da análise séria pelo lado cômico, mas o povo já percebeu que Gentili é o bobão engraçado e que Rafinha é o grandão agressor. O primeiro faz piada com o que tem: é lânguido, se faz de retardado esperto, mescla a imagem de bom moço, sonso divertido, burrinho inteligente que ganha o coração e os sorrisos das pessoas. Já o segundo faz piada com o que não tem: é agressivo, fala alto e demais, usa a imagem de bom comunicador que tem para alfinetar as pessoas de forma hostil e arrancar pequenas risadas com comentários ofensivos. Os dois têm históricos de processos jurídicos movidos contra eles: o primeiro de uma piada sem graça com uma doadora de leite materno; o segundo com outra mais sem graça ainda com Wanessa ex-Camargo e seu filho, que ainda estava na barriga dela. Nesse último, Rafinha foi condenado recentemente a pagar uma indenização por danos morais a Wanessa e sua família, no valor de R$ 150 mil. Na época, em 2012, Marcelo Tas, apresentador do “CQC”, havia dito que a cantora estava uma gracinha grávida, e Rafinha, em um dos últimos comentários infelizes na bancada do humorístico, rebateu que “comeria ela e o filho”. Deprimente. Para todos os envolvidos.

Por isso disse, lá no início do texto, que achava pouco e bom a surra de audiência que Gentili está dando em Rafinha – em alguns dias, a Band tem entrado até com o “Agora É Tarde” mais cedo só para evitar o embate. Triste e mais deprimente ainda. Ao assistir aos dois programas, me divirto e me irrito duplamente. Não tenho muita paciência com esse tipo de humor, mas, às vezes, eles conseguem tirar de mim algumas tímidas risadas. Pra mim, funciona assim. Pra outros, funciona muito mais. Mas o mais importante nisso tudo é analisar como o humor é feito. Neste mundo sem leis da piada nacional, a maior gargalhada vem salivante quando aquele piadista que se acha o tal perde para o preconceito venenoso da própria língua, que não para dentro da boca e que o obriga a mexer no próprio bolso.

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