Aproximação entre diferenças e semelhanças

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Cena da peça “De Viúva, Porém Honesta”, do Magiluth, de Recife
RENATA PIRES
Cena da peça “De Viúva, Porém Honesta”, do Magiluth, de Recife

O espaço para experimentação e para o risco é algo fundamental nos processos de criação dos coletivos de teatro. Se é raro ver uma troca entre eles, proporcionada por festivais e/ou mecanismos públicos, os grupos encontraram – eles próprios – caminhos para aproximar os seus processos e conhecer mais a fundo o trabalho um do outro. Além da mostra de espetáculos dos quatro grupos presentes na programação do Acto 3 – Espanca! (BH), Companhia Brasileira de Teatro (Curitiba), Grupo XIX (SP) e Magiluth (Recife) –, que começa hoje, haverá dois ciclos de trocas, na segunda e terça-feiras, mediados por Eleonora Fabião, diretora de teatro, performer e professora adjunta e coordenadora do curso de direção teatral da Escola de Comunicação da UFRJ. “Eu, como performer, terei uma função ativa nesses encontros. Não é exatamente o papel de uma facilitadora. Na verdade, eu acho que serei uma ‘dificultadora’”, brinca Eleonora. A artista, que fez doutorado no aclamado Departamento de Estudos da Performance na New York University, diz que seu afeto por tais companhias veio antes mesmo de conhecê-las. “Eu tenho a maior admiração por esses grupos e grande interesse por projetos que visam essa troca de figurinhas, compartilhamento de fontes, experiências e criar outras economias, afetivas mesmo”, diz. Antes dos encontros previstos no Acto, as quatro companhias fizeram um “amigo oculto dramatúrgico”, no qual textos dos grupos parceiros serão apresentados de maneiras diferentes. Cada coletivo será responsável ainda por apresentar um autor, artista, escritor ou afins, que lhe sirva de influência em seu trabalho e também apresentar uma demonstração de seus procedimentos criativos. Se nutrem um profundo interesse pelo trabalho uns dos outros, é quase unânime entre os participantes do encontro que suas diferenças são maiores que as semelhanças. “Tem uma riqueza na diferença, e nosso interesse parte justamente disso: colocar-se diante do outro a partir do que não temos em comum,”, garante Márcio Abreu, diretor e integrante da Companhia Brasileira de Teatro. “Existe um trabalho autoral coletivo. Acho que existe essa ideia de dramaturgia nacional, cada um se apropria desse conceito para criar. Todos investigam dramaturgia. Da cena, inclusive”, garante Gustavo Bones, da Espanca!. Pedro Vilela, do Magiluth, grupo que participará pela primeira vez do Acto, faz uma síntese dos trabalhos das quatro companhias. “A Brasileira tem uma cena muito limpa, quase europeia; o Espanca tem uma narrativa mais poética; o XIX é mais histórico; e nós somos mais porrada, trabalhamos com uma sujeira, uma sobreposição de elementos”, diz. Talvez, por seu papel de mediadora e “dificultadora”, Eleonora consiga identificar os traços que unem as quatro companhias. “São grupos que preconizam o fazer coletivo do teatro e seus integrantes são pessoas muito interessantes. Para fazer teatro não se pode ser diferente. Todos estão dispostos a experimentar e são investigadores. Isso me atrai muito. Além disso, vejo um interesse, de todos eles, na performance” Quero Participar! O Acto 3, mesmo trazendo espetáculos de grupos – nas palavras de Gustavo Bones– “importantes na produção teatral no Brasil”, se faz também pela afetividade entre os grupos participantes. “Muitos dizem que gostariam de vir a Belo Horizonte para participar e me perguntam como. Eu digo que as coisas não são assim. Primeiro, é preciso dividir as angústias, trocar telefone, ficar mais próximo”, finaliza ele. 

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