Crônica de uma guerra equivocada

Longa adapta livro sobre ataque real a grupo de fuzileiros no Afeganistão

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Encurralados. Filme é marcado por longa sequência de fogo cruzado de 33 minutos
Paris
Encurralados. Filme é marcado por longa sequência de fogo cruzado de 33 minutos

Antes de mais nada, é importante denunciar a fraude da tradução nacional: não há um “grande herói” no longa de Peter Berg. Se existe, é o pequeno garoto afegão do ato final, com seu olhar que pergunta em silêncio “por que essas pessoas estão atirando umas nas outras?” e “por que Mark Wahlberg está de cueca na minha sala?”.

Dito isso, é também necessário reconhecer o talento norte-americano de transformar a história de uma missão tragicamente mal planejada e executada – uma síntese irônica da guerra ao terror – em um filme sobre os valores e o espírito indômito de seus soldados. Não faria mal aos brasileiros importar um pouco dessa autoestima.

Baseado numa história real, o longa acompanha os fuzileiros Marcus (Mark Wahlberg), Mike (Taylor Kitsch), Daniel (Emile Hirsch) e Axe (Ben Foster) em 2005, na guerra do Afeganistão. Durante uma missão para capturar um líder da Al-Qaeda, o grupo é descoberto por uma família de pastores. Sem fazer mais que a obrigação e seguindo as regras de combate, eles decidem libertar os locais e abortar a operação. Poucas horas depois, os quatro são cercados por soldados inimigos e caçados impiedosamente.

O diretor e roteirista Peter Berg não está interessado nas questões políticas da guerra ao terror. Assim como em sua aclamada série “Friday Night Lights, o que o diretor tenta capturar é a essência dessa fraternidade masculina, um código de honra tão forte quanto invisível, que surge entre homens com uma missão. A diferença é que, no seriado, o que se via era o espírito de jovens atletas com uma bola, e aqui é a arrogância hipócrita do homem-branco-fardado-com-uma-arma.

O único momento em que “O Grande Herói” tenta tocar no aspecto político de sua trama é quando os quatro fuzileiros decidem se devem libertar ou matar os pastores. Na cena, Marcus – coincidência ou não, o autor do livro em que o roteiro é baseado, e que é interpretado por Wahlberg, produtor do filme – afirma que não quer aparecer na CNN como o soldado que massacrou uma família de civis.

Mas o fato de que o filme associa essa decisão ao inferno que se abate sobre eles em seguida é o sintoma amargo de um discurso político que não pode simplesmente ignorar o contexto histórico em que se insere. Não é coincidência também que essa é a cena em que o espectador tem a melhor chance de conhecer os personagens. E os atores, em performances corretas. mas nada memoráveis, têm a chance de explorar algo mais que gritos de dor e jargões militares.

Sucesso de bilheteria nos EUA, o longa merece nota realmente por seus méritos técnicos, especialmente pela impressionante troca de tiros do ataque aos fuzileiros – que rendeu duas indicações ao Oscar, de melhor mixagem e edição de som. A sequência, que lembra a crueza e o realismo de “Falcão Negro em Perigo” e “O Resgate do Soldado Ryan”, são 33 minutos de arrancar as unhas em que o fotógrafo Tobias Schliessler transforma a floresta, até então verde e bucólica, em uma pedreira sem saída e ameaçadora – mais uma imagem-símbolo da experiência do Exército norte-americano no conflito. Os fãs do gênero vão adorar. O resto do público, que não conseguir se desligar do noticiário durante as duas horas, nem tanto.  

Prova de fogo

Submetido a uma tensão realista e perigosa na produção, o elenco principal de “O Grande Herói” passou um mês em um verdadeiro acampamento de guerra. Eles foram treinados por um grupo de SEALs, coordenado pelo autor do livro original, Marcus Luttrell. Apesar do tipo de preparação imersiva ser comum em Hollywood, Wahlberg não tentou colher louros pela experiência. “Qualquer ator que compare seu trabalho ao que esses caras fazem por nós diariamente é um idiota”, afirmou.

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