Para aprender a ouvir as águas

Longa registra processo de criação do artista Cildo Meirelles

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Cildo Meirelles foi acompanhado por filmagem em sua busca sonora
janice dávila / divulgação
Cildo Meirelles foi acompanhado por filmagem em sua busca sonora

Em 1976, o artista Cildo Meirelles teve que engavetar o projeto de uma escultura sonora – um vinil que teria, de um lado, o som da água dos rios e, do outro, risadas – porque ainda não tinha a sua disposição o aparato técnico necessário. Trinta anos depois, o Itaú Cultural resolveu bancar a empreitada, dando origem à obra “Rio Oir”, resultado de quatro expedições por bacias hidrográficas nos vários recôncavos do país.

O processo foi registrado por uma equipe de filmagem, e o que era para ser um making of se tornou o documentário “Ouvir o Rio: Uma Escultura Sonora de Cildo Meireles”. Depois de passar por festivais no Rio, Toulouse, China e Rússia, o longa será exibido hoje, em Belo Horizonte, no projeto Toda Quinta e Muito MMMais, do Museu das Minas e do Metal. Após a sessão, haverá um debate com a diretora Marcela Lordy.

“Minha preocupação inicial era como eu ia filmar a realização de uma escultura que não teria imagem”, confessa a cineasta. Assistente de direção de nomes como Walter Salles e Hector Babenco, Lordy fez sua estreia em longas – e documentário – com o trabalho.

Foi ela quem convenceu o Itaú a transformar em um filme o que era originalmente uma obra para a TV. “Porque era um produto sobre áudio e sensações, e a TV é um lugar de muito ruído”, explica.

Ao mesmo tempo, a diretora deixa claro que “Ouvir o Rio” não é um registro da obra de Meirelles, mas sim do seu processo de criação. “O filme termina quando a agulha toca no vinil. A obra só será vivenciada por quem tiver o disco ou for à instalação. São linguagens diferentes”, analisa.

Com o áudio tendo um papel tão central no trabalho, Lordy conta que o maior aprendizado do projeto foi saber ouvir. “O documentário tem essa coisa de escutar e dar espaço para o outro”, avalia, acrescentando que foi um processo “muito gostoso”. “Walter Salles diz que ficção é um casamento, cheio de regras, mas documentário é namoro, uma descoberta constante”, brinca.

Para captar essa imagem sonora da obra de Meirelles, a cineasta afirma ter adotado um estilo contemplativo e planos fixos, que permitem a concentração do espectador. Mas, segundo ela, convidar o mestre em eletroacústica Sérgio Kafejian para compor a trilha musical, marcada por violões e um tema para cada região visitada, também ajudou a encontrar a identidade sonora do longa. “A água tem um efeito relaxante engraçado, que até eu dormi na ilha montando o filme. Uma amiga minha disse que ficou com vontade de fazer xixi depois de assistir, outra ficou com sede, e outra com vontade de chorar. Eu brinco que só não pode dormir”, ela ri.

Agenda

O quê. Exibição de “Ouvir o Rio: Uma Escultura Sonora de Cildo Meireles”.

Quando. Hoje, às 19h30

Onde. Museu das Minas e do Metal – Circuito Cultural Praça da Liberdade

Quanto. Entrada gratuita

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