Várias afetividades criativas

Espanca! recebe encontro com grupos de três cidades com demonstração de métodos de trabalho e trocas artísticas

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Confira! Espanca! e Grupo XIX voltam a apresentar “Marcha para Zenturo” (à esquerda)
ALESANDRA HARO
Confira! Espanca! e Grupo XIX voltam a apresentar “Marcha para Zenturo” (à esquerda)

Os encontros e as trocas artísticas entre coletivos de teatro de outras cidades brasileiras costumam ser raridade. Primeiro, impera uma dificuldade geográfica de um país com proporções continentais, depois existem os entraves de uma lógica que faz com que os grupos até circulem por regiões variadas do país, mas sempre numa agenda apertada de muitas apresentações e pouco tempo para conhecer os artistas locais, seus processos criativos e as realidades com as quais eles trabalham.

O Acto 3 – que terá início hoje à noite com o espetáculo “Isso Te Interessa?” da Companhia Brasileira, no Galpão Cine Horto – tenta justamente estabelecer uma nova lógica de encontro. “Temos o desejo de fazer um festival, que tenha curadoria, mas também tenha um sentimento afetivo: de pertencimento a uma geração do teatro brasileiro”, destaca Gustavo Bones, ator e integrante do Grupo Espanca!, coletivo responsável por organizar a programação.

Ele aponta que, embora já haja um entendimento diferente das curadorias dos festivais, ainda grande parte dos esforços se voltam para a apresentação de espetáculos. “É um sentimento generalizado no país de que um festival é, na verdade, uma mostra de peças. Todo mundo que frequenta esse circuito, tem essa sensação de ‘perda de tempo e dinheiro’. Tanto esforço feito e, por questões de produção, os grupos não conseguem conviver, trocar experiências. Acho que há uma tentativa de mesas-redondas, intercâmbios que são propostos por essas programações, mas geralmente é algo decidido externamente, imposto, para cumprir a grade de programação”, destaca.

Ainda que o encontro entre os coletivos seja a menina dos olhos do Acto 3, haverá, sim, mostra de espetáculos dos grupos. “Seria difícil, não faz sentido trazer esses artistas a Belo Horizonte e não mostrar seus espetáculos, mas o que nos interessa mais enquanto artistas é essa possibilidade de intercâmbio”, destaca Bones.

Dessa forma, durante dez dias, quatro grupos se reúnem na cidade para mostrar seus trabalhos ao público e também para estabelecer uma troca artística que será mediada pela pesquisadora Eleneora Fabião, pesquisadora em teatro, performance e professora do curso de direção teatral da UFRJ. Os grupos são: Espanca!, de Belo Horizonte; Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba; Grupo XIX de Teatro, de São Paulo e Magiluth, de Recife.

Histórico. A primeira edição do evento nasceu em 2007 do desejo de aproximar três companhias que se encontravam frequentemente na programação dos mesmos festivais Brasil afora e acabaram desenvolvendo um interesse pelo trabalho um do outro e – por que não? – uma amizade.

“Nós somos um grupo que sempre viajou muito, principalmente com nossos primeiros espetáculos. (“Por Elise” e “Amores Surdos”). Daí, a gente foi se sentindo atraído por outros grupos, a gente foi reencontrando essas pessoas em nossa trajetória, principalmente a (Cia.) Brasileira e o (Grupo) XIX. Descobrimos que éramos amigos. Mesmo com trabalhos tão diferentes, nós gostávamos muito do trabalho uns dos outros”, ressalta Bones.

Para além do interesse dos artistas pelos outros, o ator destaca outros pontos importantes na criação do Acto. “Pouquíssimas pessoas tinham visto o ‘Hysteria’ (espetáculo do Grupo XIX de Teatro – atração do FIT de 2006 – que se passa em uma casa de saúde mental, do século XIX, em que as mulheres da plateia são convidadas a participar mais de perto da rotina das internas e os homens assistem a tudo de uma plateia isolada) e nós trouxéssemos à cidade novamente (em 2007, no Acto 1). Fora isso, a Companhia Brasileira, que nunca tinha vindo a Belo Horizonte, também veio na primeira edição, e depois disso passou a ser uma referência aqui e pôde voltar outras vezes”.

O Acto sempre rendeu parcerias ao Espanca!. Em 2010, os mineiros passaram seis meses em São Paulo, ensaiando com o Grupo XIX o espetáculo “Marcha para Zenturo”, que estreou justamente no Acto 2. Logo após, eles se envolveram na criação de “Troca de Pacotes”, intervenção com a Companhia Brasileira, em 2011.

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