Gigante paralisado

iG Minas Gerais |

A luta, vista de perto, deixa ver um embate engalfinhado por espaços na estrutura governativa entre dois gigantes partidários: PMDB e PT. Sobre o primeiro colou-se a pecha de fisiológico. Sobre o segundo, conta-se um pouco de tudo, como a versão de que deixou de ser “vestal” para se transformar em pecador igual aos outros. Ambos são parceiros na construção da aliança que pôs Dilma Rousseff no comando da nação. Desde 1986, o PMDB tornou-se a maior organização partidária, elegendo o maior número de prefeitos e as bancadas mais cheias nas áreas legislativas. De lá para cá, acumulou extraordinária capilaridade, fazendo-se presente nos rincões distantes e se tornando o pêndulo de qualquer governo. Puxando os cordões do poder pelas margens sociais, conseguiu chegar, por três vezes, à Presidência da República e neste ano busca angariar a quarta vitória, com a qual reforçará a base do projeto mais longo (e vertical) de poder da história contemporânea: dirigir o Brasil por um tempão. Vista de longe, a esganiçada contenda entre os dois atores mostra que ambos não lutam apenas para conquistar espaço na Esplanada dos Ministérios. Trata-se de algo mais abrangente e que, pouco a pouco, acirra os ânimos dos parlamentares plantados nas legendas governistas. A meta petista é eleger, neste ano, 130 deputados federais, o maior número de governadores, a mais extensa bancada de deputados estaduais, pavimentando a base para o “Volta, Lula” em 2018, com direito a reprise na reeleição de 2022. Hegemonia – eis o fulcro do imbróglio entre os maiores partidos políticos. O poder hegemônico engendrado pelo PT é que está em jogo. São tênues, para não dizer improváveis, alternativas que apontem para o estreitamento das colunas do nosso edifício democrático. A contemporaneidade abre-se para o respiro social e a hegemonia, pelo menos nos termos do passado, não condiz com a atualidade. Não se divisa “o fim do poder” nas condições que o editor-chefe de “Foreign Police”, Moisés Naim, mostra em seu livro lançado em outubro do ano passado, e sim sua degradação, seu arrefecimento. As dificuldades enfrentadas pelas administrações públicas, em todo o planeta, impõem novos paradigmas, levando os poderes a se tornar fragmentados. O palco da política está mudando. Na esteira da dispersão, antigos centros de poder perdem sua capacidade de coordenação e controle. Os arsenais das democracias enchem-se de armas menores, mas tão eficientes como os grandes armamentos, tendo capacidade de vetar, contrapor, combater e limitar as margens de manobra dos grandes atores. Essa nova artilharia é composta e suprida por micropoderes, ajuntamentos de pessoas, formados no interior de categorias profissionais, na escala dos gêneros, nas geografias regionais e no espaço das organizações intermediárias. Moisés Naim pinça um bom retrato: “a figura de Gulliver, amarrado no chão por milhares de minúsculos liliputianos, capta bem a imagem dos governos destes tempos – gigantes paralisados por uma multiplicidade de micropoderes”.

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