“Não vos queixeis dos tempos, vós sois os tempos’’

iG Minas Gerais |

Pouco antes do “crack” da Bolsa de Valores de Nova York, Sigmund Freud publicou um livro muito interessante, intitulado “O Mal-Estar da Civilização”. Nele, tratou da sensação de angústia generalizada a perpassar seus contemporâneos numa época que se anunciava como de profunda crise de valores. Freud apontava na obra a incapacidade da cultura ocidental de oferecer felicidade, aquele etéreo objeto de desejo inscrito por Thomas Jefferson na Declaração de Independência dos Estados Unidos aos homens e às mulheres da década de 20 do século passado. Parece-me desnecessário dizer o que veio depois. Basta apenas lembrar que, pouco antes da comemoração do primeiro decênio do fatídico evento em Wall Street, iniciava-se a Segunda Guerra Mundial. Não vos queixes dos tempos”, pregava santo Agostinho. Tenho tido, porém, ultimamente, desde a débâcle que se abateu sobre as economias norte-americana e europeia em setembro de 2008, um estranho sentimento de esgotamento dos potenciais culturais de nosso tempo. Na política, na ciência, na economia, nas artes, tudo parece sem rumo. Meus coetâneos estão taciturnos, diria Drummond. Os desastres ambientais vão se acumulando. A tecnologia não encontra limites éticos. Há erupções de nacionalismos irracionais por todos os lados. Os sistemas econômicos ampliam o fosso entre aquele 1% da humanidade que controla quase tudo e o resto da patuleia a que se reserva, quando muito, ultrapassados os umbrais da exclusão absoluta, o direito de consumir. E todos os nossos desejos monitorados por esse Big Brother da modernidade: a NSA. Não há música que dê conta de novas aspirações. Só combinações de ruídos digitalizados (o Kraftwerk dos anos 70 era mais original!). Não há teatro que espelhe nossos dramas. A literatura encolhe. Eric Hobsbawn havia dito, em um de seus últimos ensaios, que apenas as artes visuais (leia-se cinema, TV, YouTube) sobreviveriam. Mas mesmo nas telas há muito pouco de inspiração. Incrível como o consumo de drogas lícitas ou ilícitas se espraia. Na ausência de utopias, a humanidade busca o torpor. Há, de tal forma, um chamamento à erotização que nos Carnavais da vida trocam-se parceiros com mais frequência que fantasias, quando essas existem. Estamos imersos na cultura “selfie” do Instagram: egoísmo e narcisismo imperam. As religiões não religam ninguém à transcendência. Servem de motivo para altercações e violência desenfreada em várias partes do planeta. Tudo seria motivo para precipitarmo-nos de vez nas águas, como argumentava o poeta. Mas eis que leio interessante entrevista com o jornalista italiano Eugenio Scalfari, ateu, iconoclasta, socialista militante. Roma tornou-se novamente a capital do mundo, diz ele do alto dos seus mais de 80 anos. De lá, para espanto de todos, uma voz vinda do fim do mundo, um tal de Francisco, há um ano, pede aos jovens que sejam revolucionários. Digo, então, a mim mesma: não tenho um cão, como no poema, mas ainda há esperança. Não nos queixemos dos tempos. Nossas ações fazem o nosso tempo!

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