Pais precisam se policiar para evitar vício em smartphone

Além do risco de acidentes, crianças podem ficar ressentidas

iG Minas Gerais | Dr. Perri Klass |

Orientação. Se um dos pais precisa acessar dispositivos, outra pessoa deverá fazer a supervisão
DOUGLAS MAGNO / O Tempo 18.07.20
Orientação. Se um dos pais precisa acessar dispositivos, outra pessoa deverá fazer a supervisão

Nova York, EUA. Cada geração de paternidade gera algum novo sistema de classificação pelo qual os pais podem ser julgados e considerados deficientes. Nós criticamos incessantemente os rituais de jantar em família, creches e babás, a disposição dos pais para seguir cronogramas, ou para ignorar as regras e seguir as diretrizes de seus filhos. Faça o que fizer, você provavelmente está fazendo errado. Sim, você, largue esse celular e preste atenção.

Em um estudo publicado recentemente na revista “Pediatrics”, pesquisadores observaram clientes em restaurantes de fast-food na região de Boston, nos Estados Unidos, examinando a nova configuração familiar de adulto, criança e dispositivo móvel. Os pesquisadores analisaram em detalhes o que ocorria entre crianças e os adultos que cuidavam delas, com foco no uso de dispositivos como smartphones e tablets pelos adultos.

O objetivo era observar, e descobrir, que tipo de perguntas deveríamos fazer sobre esses novos dispositivos digitais enquanto eles se relacionam com o cuidado infantil. Sem nenhuma surpresa, a maioria utilizava algum tipo de dispositivo, seja de forma contínua, intermitente ou após o término da refeição. Dos 55 grupos observados no estudo, apenas 15 não tinham dispositivos em uso.

“Nós definitivamente percebemos mais envolvimento quando não havia um dispositivo disponível”, declarou a doutora Jenny Radesky, principal autora e estudiosa de pediatria comportamental e de desenvolvimento no Boston Medical Center. Adultos que digitavam ou tocavam seus aparelhos estavam mais focados em suas telas do que aqueles fazendo chamadas telefônicas. Os que prestavam mais atenção às crianças eram, naturalmente, os que não faziam nenhuma dessas coisas.

Reflexo. As crianças podem ficar ressentidas com isso, afirmou Catherine Steiner-Adair, psicóloga clínica que entrevistou mil crianças, além de muitos pais, professores e jovens adultos, sobre o papel das telas nas vidas infantis para seu livro, “The Big Disconnect: Protecting Childhood and Family Relationships in the Digital Age” (A enorme falta de conexão: protegendo a infância e as relações familiares na era digital, em tradução livre).

“Crianças de todas as idades – 2, 15, 18 e 22 – usaram as mesmas palavras para descrever como é difícil conseguir a atenção de seus pais quando precisam: bravo, nervoso, irritado e frustrado”, disse. Elas reclamaram que seus pais estavam focados nas telas, “falando sobre essa nova rivalidade entre irmãos, mas não com um novo membro da família – e sim uma nova tela, um novo dispositivo”.

Arriscado. Conforme os dispositivos móveis se tornam cada vez mais presentes na vida familiar, alguns especialistas advertem que aumentos no número de acidentes com crianças pequenas podem ser causados por pais ocupados demais enviando mensagens de texto ou e-mails para cuidar adequadamente de suas responsabilidades.

“Esses dispositivos são apenas um marcador para diferentes estratégias de criação e/ou diferentes satisfações, diferentes estilos – ou o dispositivo em si está impactando essas interações?” questionou Jenny.

Segundo Catherine, crianças com idade suficiente para conhecer a palavra “hipócrita” estavam sempre prontas para aplicá-la a pais que criam regras sobre o uso de telas para crianças, mas ignoravam as próprias regras. Todos são suscetíveis à ideia de que nossas próprias mensagens ou contatos são singularmente urgentes. “Como pais, temos de ser muito mais conscientes sobre como interagimos com a tecnologia naqueles momentos em que nossos filhos precisam de nós”, argumentou.

Dividido

Uso. Jenny Radesky apontou que, embora alguns adultos observados no estudo estivessem completamente absortos em seus dispositivos, muitos os utilizavam equilibrando a eletrônica e o envolvimento com os filhos.

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