Encantamento

iG Minas Gerais |

salomão salviano
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Quatro atores no palco: corpos, objetos cênicos, cenografia e iluminação a serviço da dramaturgia. E, por não ser uma dramaturgia da palavra, mas do gesto, todos esses elementos são fundamentais para se contar a história. E que história! Dois irmãos se reencontram no velório do pai e relembram a infância, vivida com tudo a que se tem direito: brincadeiras, brigas, ciúme, disputa pelo amor da mãe, cumplicidade... Uma infância que será marcada por uma tragédia e que vai determinar o futuro/o presente. E quem, senão a companhia Dos à Deux, para nos contar essa história e nos deixar, ao mesmo tempo, perplexos, reflexivos, emocionados, embasbacados, enlevados? Como se consegue contar uma trama com tanta profundidade sem que se diga uma só palavra? Como se faz para que cada uma daquelas pessoas sentadas na plateia se identifique? Como se chega a tanta beleza em cena? Pergunte aos geniais Artur Ribeiro e André Curti, donos da Dos à Deux. E a resposta é “Irmãos de Sangue”, seu mais novo espetáculo, em cartaz na cidade. Em cena, eles recebem a companhia de Cécile Givernet e Matías Chebel. Mas são deles também a dramaturgia, a direção, a iluminação, a cenografia. Artur e André dispensam a palavra e nada mais. Não desperdiçam um só gesto, um só objeto, uma expressão facial, um facho de luz que seja. Tudo faz sentido em cena, e, quando você se dá conta, já está impregnado por aquele universo criado por eles, em que uma coisa vira outra, bonecos se transformam em gente, e gente, em boneco. Eles já tinham me encantado com “Aux Pie de la Lettre”, o espetáculo sobre loucura que eles trouxeram para o FIT em 2003. E, cinco anos depois, com “Saudades em Terras D’Água”, sobre imigração, foi só a confirmação de que a dupla trabalha sempre com a excelência. Agora, em “Irmãos de Sangue”, André e Artur brindam o público, mais uma vez, com um espetáculo sublime – essa é a palavra. Eles lançam mão do lúdico, do humor e da emoção e de toda técnica corporal e jogo cênico de que são capazes para tocar o público. Porque o que buscam André e Artur é um teatro físico acessível a todos. Mas não um acesso pelo óbvio, pela facilidade, mas pela sensibilidade e inteligência. E não tem como sair ileso ao que é proposto em cena. O resultado pode ser visto no olhar de encantamento do público, na saída do teatro. Faça um favor a si mesmo. Vá ao CCBB e assista a “Irmãos de Sangue”. O ingresso custa apenas R$ 10. Mas, ao fim do espetáculo, você vai querer pagar R$ 100.

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