Sobre o papel do mecenato

Curadora de exposição de Portinari baseada em coleção particular fala sobre a importância do mecenas nas artes

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Esboço para o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”
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Esboço para o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Além de trazer a Belo Horizonte obras importantes de Cândido Portinari (1903-1962), a exposição “Portinari na Coleção Castro Maya” foi elaborada, como conta a curadora da mostra, Anna Paola Baptista, com o objetivo de estimular a reflexão sobre o papel do mecenato e do colecionismo na sedimentação da arte moderna brasileira.

Para isso, a curadora pesquisou a relação de amizade entre Portinari e Castro Maya. E utilizou da coleção deixada pelo mecenas quando ele faleceu em no final da década de 1970. Além de agitador cultural, Castro Maya era um ávido comprador de obras de arte. Um dos resultados desse hábito foi uma amizade com Portinari. O outro, foi se tornar incentivador de um dos mais importantes artistas do Brasil.

“O papel do mecenas foi muito importante para o circuito artístico do Brasil entre as décadas de 1930 e 1960. Era uma época em que o mercado era incipiente, com poucas exposições e galerias. Raimundo Ottoni de Castro Maya foi um dos principais representantes dessa classe”, diz Anna Paola.

De lá para cá, muita coisa mudou no mundo de negócios da artes plásticas. “Atualmente, temos um mercado pujante, que fez com que tivéssemos menos necessidade do papel do colecionador e do mecenas”, afirma a curadora.

Apesar disso, eles não são dispensáveis, na opinião de Anna Paola, pelo contrário. Na atual estrutura, eles assumem uma função vital, de acordo com ela. “Os mecenas e colecionadores são importantes por serem os principais compradores de obras. Assim, ajudam a movimentar o mercado”, diz.

Ao manter o mercado em funcionamento garantem a existência de vários componentes desse conjunto. “A profissionalização do artista acontece quando ele tem suas obras adquiridas. Se você não tiver um mercado que suporte isso, haverá bem menos artistas e, consequentemente, menos obras. Com menor quantidade de arte, menor a necessidade de galerias e de museus. E por aí vai. As coisas estão ligadas”, reflete.

No Brasil, esse papel é ainda mais importante. Por aqui, conta a curadora, as instituições, principalmente as públicas, têm muitos problemas para adquirir obras de arte. E uma das formas de completar acervos públicos de museus é por meio de coleções particulares. “É muito comum que exposições sejam realizadas com parte de acervo público e de privado”, comenta.

Não só mostras contemporâneas, mas muitos acervos permanentes são regidos por acordo em regime de comodato.

Esse cenário contribui para a acessibilidade e para a democratização de eventos culturais. “Essa conjuntura propicia que uma maior parte da população consuma cultura. Se isso acontece, é porque há uma oferta maior. Sem o mecenas, isso seria mais difícil de acontecer”.

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