‘A cirurgia é apenas parte do processo’

René Berindoague Cirurgião do aparelho digestivo Membro da International Federation for the Surgery of Obesity – IFSO diretor técnico do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia

iG Minas Gerais | Andréa Juste |

René Berindoague - Cirurgião do aparelho digestivo, Membro da International Federation for the Surgery of Obesity – IFSO e diretor técnico do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia
Rafael Tavares / Divugacao 13.0
René Berindoague - Cirurgião do aparelho digestivo, Membro da International Federation for the Surgery of Obesity – IFSO e diretor técnico do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia

Especialista em cirurgia da obesidade, o médico comenta o caso do apresentador André Marques, que está 53 kg mais magro, e destaca a importância do acompanhamento antes e após a redução do estômago.

Os casos de obesidade são mais relacionados a causas hormonais ou ao estilo de vida? O que está acontecendo hoje é o descuido com a saúde, o sedentarismo. Temos 51% da população acima do peso. A obesidade caminha junto com a hipertensão arterial, o diabetes, então essas doenças também estão aumentando. São 23 milhões de diabéticos no país.

Qual a indicação da cirurgia? Há vários critérios, a idade (de 18 a 65 anos – 16 em alguns casos), tem que ter passado por tratamento de pelo menos dois anos e não ter conseguido emagrecer, o Índice de Massa Corporal acima de 40, entre outros. Um fator importante é que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) obriga que os planos de saúde paguem pela cirurgia.

Quais os tipos de cirurgias? Existem quatro tipos (veja dois no infográfico). Cada caso tem que ser avaliado conforme o perfil do paciente. Ele tem que procurar um serviço em que a equipe médica tenha conhecimento de todos os tipos. Um mecanismo é restrito (restringe a ingestão dos alimentos) e tem o disabsortivo (grosso modo, liga o estômago ao ânus), que são os que mais emagrecem, mas há problemas com relação à absorção de nutrientes. Já as cirurgias mistas têm um pouco de cada. O André Marques fez a mista (Fobi-Capella). O bacana da operação é que descobrimos regiões do estômago que produzem o hormônio da fome (grelina), então retira-se essa parte.

Como é a dieta após a cirurgia? É feita por etapas. A partir do segundo mês o paciente já começa uma dieta bem normal. A partir do terceiro ele volta a comer o churrasco dele.

Quem procura mais a cirurgia? As mulheres. Homens são mais medrosos para qualquer cirurgia.

Quando o paciente passa a sentir os benefícios? O (fim) do diabetes é imediato. Tem paciente que sai do hospital sem precisar mais de insulina. A cirurgia metabólica tem muitos resultados.

Quantas cirurgias são feitas por mês? No Hospital Lifecenter, em Belo Horizonte, são feitas oito operações por dia, em média. Em 2013, foi o quinto do Brasil em cirurgias bariátricas. Há outros hospitais credenciados para fazer a cirurgia na capital mineira, então acredito que seja uma média de 40 cirurgias por dia. Em 2012, foram 54 mil cirurgias no país por videolaparoscopia (menos agressiva, com pequenos furinhos). O Brasil só perde para os EUA em número de cirurgias.

Como é a sobrevida de um paciente que opera? É raro ver um obeso mórbido chegar aos 70 anos de vida. Como a cirurgia é cara, em Minas, por exemplo, apenas dois hospitais fazem o procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Talvez uns 20 pacientes sejam operados por mês em BH. O total é de 5.000 pacientes na lista do SUS. Muitos deles morrem antes de chegar a hora de operar. O paciente obeso mórbido tem 35 mais chances de ter morte súbita que uma pessoa não obesa. A obesidade vai perpetuando. Em um casal obeso, a chance de o filho ser obeso é de 90%. Todo paciente que chega ao consultório foi indicado por alguém da família.

Qual a importância de um acompanhamento? A cirurgia não é a salvadora, é parte do processo. É preciso enxergar que a cirurgia é um tratamento multidisciplinar. O paciente tem que procurar uma equipe com vários profissionais, tem que ter apoio. Se o paciente acha que a cirurgia sozinha vai dar conta, se ele não procurar ajuda profissional, não mudar hábitos, não fizer atividade, ele tem 70% de chance de reganho de peso ou não perder como queria.

O que os pacientes contam? Há casos marcantes? Vários. Tinha um que só usava sapato aberto. Hoje a paixão dele é ir a sapataria experimentar sapatos para amarrar o cadarço. Já outro paciente disse que está uma fera na cama.

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