Criança Canhota

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Apeça “A Saga de Vicente”, do dramaturgo Gustavo Ministério, está em cartaz desde o ano passado no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro, e vai reestrear no mês que vem em pequenas cidades mineiras do Vale do Mucuri, ali perto da divisa com a Bahia, acima de Teófilo Otoni. São duas montagens distintas para o texto do mesmo autor, e as diferenças entre elas não são poucas, cito apenas algumas. No Rio, é encenada por um elenco de 25 pessoas, entre elas pessoas de televisão; no Vale do Mucuri, as apresentações acontecem em praças, quadras e outros espaços públicos, por oito integrantes do Criança Canhota, um grupo de ocupação artística composto por jovens e adolescentes da cidade de Águas Formosas (MG), atendidos pela Vale Viver, uma associação de promoção social e ponto de cultura. Não preciso perguntar a Gustavo para saber que ele está muito satisfeito com o sucesso de público da peça no Rio, mas a razão pela qual ele me telefona da distante Teófilo Otoni é a preocupação com o futuro do Criança Canhota. Os recursos obtidos em 2012 com a aprovação da criação do ponto de cultura se esgotaram. Ele e alguns amigos estão pagando as despesas momentâneas, mas não têm condições de manter isso e buscam apoio de empresas e parceiros que possam ajudar. Pedi a Gustavo que me enviasse mais detalhes por email, no que fui atendido por muitas informações e também por fotos que mostram o belo trabalho ali realizado. Ele explica que a Vale Viver tem um trabalho voltado para o atendimento a pes<CS8.9>soas do Gameleira, bairro de Águas Formosas com um dos mais altos índices de criminalidade da região e que até há 13 anos era um assentamento de famílias sem teto. Com a criação do Criança Canhota surgiu um núcleo de formação de multiplicadores da prática teatral no Vale do Mucuri. Adolescentes participam de oficinas teatrais e depois passam a ministrar aulas em cidades da região, o que inclui atuação em locais como presídios, comunidades rurais, assentamentos e áreas com alto índice de violência. Além do teatro, há oficinas de fotografia, cinema e música. Com parte dos últimos recursos do programa do ponto de cultura foram adquiridos equipamentos para oficinas de cinema em que os participantes aprendem a realizar filmes. Aliás, a essência do projeto é por aí, transferir para a população com menos acesso a tudo, os meios de produção artística. Gustavo me conta por telefone que tem vivenciado os resultados positivos das ações. “No início os pais mostravam resistência em deixar os filhos participarem das oficinas, mas à medida que acompanhavam o projeto isso ia mudando e hoje muitos têm consciência de como essas atividades representam um caminho para que os filhos não entrem para a droga e para o crime”, relata. E o texto do próprio Gustavo, expõe melhor a situação. “O projeto já há 10 meses funciona sem qualquer recurso, já estamos começando a ficar com a continuidade ameaçada. Ele já atendeu diretamente 320 pessoas. Em parceria com a Vale Viver, o número salta para mais de 2.000 pessoas atendidas, e já revelou atores, poetas, bailarinos, trapezistas, cineastas, músicos, etc., em um lugar muito distante dos grandes centros e escolas. Assim como há tanta gente talentosa na Vale, não queremos que o projeto fique na estrada”. Para contatos, ele deixa o email: gustavocaldeiraministerio@gmail.com Admiro a abnegação de pessoas que se dedicam a projetos como o Criança Canhota, iniciativas ainda mais difíceis quando se está distante dos grandes centros urbanos. As ações tendem a ser pouco conhecidas e pouco apoiadas. Por isso a intenção de Gustavo de divulgar mais, neste momento, com a intenção de buscar a ajuda de empresas e parceiros que muitas vezes até procuram bons projetos para apoiar e não têm conhecimento. Boa sorte! A propósito, a peça “A Saga de Vicente” trata de um personagem que cresce num vilarejo do sertão nordestino em que todos questionam sua condição de ser humano por sua aparência grosseira e traços de jumento. Ele decide então atravessar o sertão em busca da sua prova de “humanidade”: sua certidão de nascimento.

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