Obra é primeira ficção “clássica” do diretor mineiro

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |



Miguel e Bernadet encenam embate de visões de mundo antagônicas
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Miguel e Bernadet encenam embate de visões de mundo antagônicas

]Apesar de todo o repertório documental que Kiko Goifman traz para o projeto, “Periscópio” pode ser considerado seu primeiro longa de ficção. “Eu particularmente chamo ‘Filmefobia’ de ficção. Mas o que aconteceu foi que, na Dinamarca, ele foi exibido na sessão de documentários. Já no Festival de Cuba, foi considerado ficção”, ele se diverte.

A solução, talvez, seja pensar “Filmefobia” – que retrata uma série de personagens encarando suas piores fobias – como uma ficção em formato de documentário. “O ‘Periscópio’ é uma ficção clássica”, afirma, antes de titubear e ressaltar que é tão clássica quanto ele consegue ser.

Esse limite tênue trouxe seus desafios. O principal deles provavelmente foi o personagem de Eric que, assim como Jean-Claude Bernadet, é um intelectual nascido em Montpellier confrontado com a dificuldade de uma vida sem visão.

“É uma questão física, uma porrada. Não é abstrato nem poético. Eu provavelmente não conseguiria fazer um filme em que ele vive um personagem que enxerga”, explica Goifman. Ao mesmo tempo, porém, Eric – que passa a primeira parte do longa entediado e esperando a morte – não é Bernadet.

“Ele é agressivo, intolerante e trata o Élvio quase como um déspota”, contrapõe o diretor. Em atuações impecáveis, o pesquisador e João Miguel conduzem seus personagens dessa tensão passivo-agressiva do primeiro ato – entre o acadêmico frio e desencantado, e o cuidador devoto de São Jorge com uma imaginação quase infantil – passando pelo choque causado pelo periscópio do segundo e chegando à possibilidade de uma aproximação no terceiro.

“A primeira parte é a negação do contato”, analisa Goifman. Esse não-reconhecimento é sintetizado em uma das cenas mais difíceis de filmar, segundo o diretor, em que Élvio e Eric despejam seu desprezo mútuo um pelo outro em dois longos monólogos – que eles falam um por cima do outro. “É uma sequência bastante singular e quase política, na defesa do meu método de trabalho aberto à experimentação. É uma cena quase impossível de ser escrita do jeito que está. Tinha 16 páginas no papel e terminou com quatro minutos na montagem”, defende.

Diferentemente de “Filmefobia”, Goifman conta que rodou várias sequências de “Periscópio” em apenas um take. Outras levaram nove. “Usei muito a junção entre o frescor de uma primeira tomada e o rigor de uma quarta ou quinta”, avalia.

É essa oscilação de humor que vai conduzir Eric e Élvio no arco transformador dos dois atos finais. “O periscópio é o combustível para mudar o cotidiano, o que acaba criando a oportunidade de diálogo. E mesmo de uma união. Só que eles vão descobrir que, se um pouco de qualquer coisa é bom, muito pode ser complicado. A união trazida por esse terceiro elemento é frágil”, provoca.

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