Cinema como fonte de vida

Projeto abre sua edição 2014 hoje no Palácio das Artes com a estreia de “Periscópio”, novo longa de Kiko Goifman

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

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paleotv / divulgação
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Depois da parceria no longa-metragem “Filmefobia”, de 2008, Kiko Goifman e o amigo e crítico Jean-Claude Bernadet desejavam trabalhar juntos de novo. Ocupado, o cineasta sugeriu que o francês ‘começasse alguma coisa’. “Aí um dia, ele me manda 40 sequências, uma coisa absurda”, ri Goifman.

Mais do que isso, o material não se tratava de um projeto qualquer. “O Jean-Claude estava interessado em algo que ele chama de autoficção”, explica o diretor. E o roteiro acabou se tornando uma imaginação kafkiana da relação entre o intelectual semicego Eric (o próprio Bernadet) e Élvio, um quase cuidador-enfermeiro-secretário (João Miguel). “O que, na verdade, era uma questão pessoal dele”, coloca Goifman, referindo-se à aguda perda de visão que acometeu o amigo francês nos últimos anos.

O resultado é “Periscópio”, que tem sua première em Belo Horizonte hoje, no Cine Humberto Mauro, às 19h. A sessão abre o projeto Curta Circuito 2014 e será seguida por um debate com Goifman e Bernadet.

Essa relação sinuosa entre intimidade e cinema não era estranha para o diretor, que fez sua estreia em longas com o documentário em primeira pessoa “33”. “Acho interessante que o processo de fazer um filme me afete pessoalmente”, argumenta.

No caso de “Periscópio”, porém, a mulher e o filho do cineasta sofreram os efeitos colaterais dessa necessidade. O motivo: ele decidiu usar sua própria casa como o apartamento de Eric e Élvio, cuja sala é invadida no meio do longa pelo objeto do título. Goifman e a família, que haviam acabado de se mudar, tiveram que passar dois meses e meio em um flat.

“Foi uma decisão louca. Destruí minha casa inteira e tive que pintar tudo de novo. Mas isso tornou tudo muito intenso e era essa imersão total que eu queria”, conta. A ideia também teve um fundo logístico, já que produção e set puderam funcionar no mesmo local. “E é um lugar onde me sinto à vontade, e isso me interessa”, pontifica.

Convite ao inesperado. Mesmo a escolha de João Miguel como o coprotagonista buscou manter esse ambiente familiar, já que o baiano é velho conhecido do cineasta. “Gosto muito de trabalhar entre amigos, e me coloquei esse desafio de trabalhar com um não-ator e um ator com toda a formação”, justifica.

Miguel chegou mais tarde no processo, mas sua participação não foi menos pessoal. Um diálogo insólito de uma das principais sequências do longa – um banquete que Eric e Élvio encenam para o periscópio e no qual mergulham com mãos, pés e corpo, como em um bacanal – surgiu de uma lembrança do ator.

“No dia em que íamos filmar a cena, eu tomei café da manhã com o João e ele me disse que tinha lembrado do cheiro do cocô da mãe dele. Imediatamente, conversei com o Jean e falei que isso tinha que entrar”, ri Goifman.

Além dessa mescla entre realidade e ficção, o caso demonstra bem o clima aberto à exploração e improvisação estabelecido pelo diretor no set. “O Jean-Claude e eu concordamos que o roteiro é importante, mas ele não é Deus. A gente acredita que o ato de filmar pode trazer novidades interessantes”, esclarece.

Segundo o cineasta, isso não significa um vale-tudo. “Mas eu sempre deixava brechas, como uma tarde de filmagem em aberto, quando a gente partia de situações que eu não sabia muito bem onde iam dar e construíamos a cena juntos”, recorda.

Esse convite ao inesperado – influência clara do documentário – se reflete mesmo na presença do peixe Jack, melhor amigo de Élvio, e no surgimento inusitado de uma cabra no meio do longa. “Adoro filmar animal, desde ‘Filmefobia’. Ele cria uma instabilidade no set, instiga e provoca um inesperado a que a gente tem que reagir”, elabora.

É esse lugar entre a realidade e a ficção que interessa Goifman. “Exatamente por ele ser pantanoso, incontrolável, instável. É isso que eu procuro nos meus filmes”, analisa.

Não por acaso, é essa mesma instabilidade criativa que o periscópio do título traz para o cotidiano modorrento de Eric e Élvio. Dentre as milhões de metáforas possíveis para o objeto, ele é essa câmera-dispositivo que traz o cinema como forma de sobrevivência para dois protagonistas que estavam, até então, à espera da morte.

“Ele traz a possibilidade do sonho. Em certo momento, o João diz uma palavra, ‘alegriazinha’. O periscópio não faz da vida uma festa. Não existe felicidade. Ele propicia uma alegriazinha frágil dentro do universo precário deles”, filosofa.

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