Gomorra

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Conversando com quem ainda tem um olho para enxergar e uma consciência não acomodada à política tupiniquim, ouvi dele: “Hoje político só pensa em negócios...”. A política se reduziu a negócios, escancaradamente a negócios na forma mais direta e fácil de enriquecer, de deter poder e se esbaldar dele. Compromisso com a comunidade apenas no limite suficiente para enganá-la, mais ou menos como faziam os colonizadores com espelhos e bugigangas para as populações indígenas. Antigamente o saque de uma cidade se dava pelo Exército invasor ao fim de uma batalha; agora se dá depois de uma campanha eleitoral vitoriosa. Existem municípios que são repartidos entre bandos que respondem a diferentes siglas partidárias, solidárias e unidas na hora de arrombar cofres do município. No fim do mês passado, uma cidade do Sul de Minas, Itamonte, foi invadida por um bando de 20 assaltantes fortemente armados que pretendia render os 5.000 habitantes e saquear agências de bancos, estabelecimentos comerciais e tudo o que pudesse durante duas horas de arrastão sincronizado em várias frentes. Acabou num confronto com as forças policiais; nove corpos ficaram estendidos ao fim de um tiroteio que parecia não acabar nunca. Na atualidade, afirmava meu interlocutor, muitas alianças políticas se estreitam para saquear sem armas as prefeituras até a última gota de recursos públicos, rendendo inútil o esforço dos cidadãos contribuintes. Verdadeiros arrastões são praticados por equipes de governo. Nada escapa. Em Minas, em 2013, já caíram mais de 40 novos prefeitos, e na fila de espera tem mais de 120 que sofrem o risco de perder a cadeira. Cerca de 20% das administrações locais sofrem denúncias do Ministério Público por graves irregularidades, e mais de 50% sofrem processos administrativos por aplicação irregular que inclui peculato, desvios, corrupção e crime contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, ainda por abuso de verbas públicas com fim eleitoral. “A ideologia ou idealismo – confessou pesarosamente meu conhecido – morreu. A ética não sensibiliza mais nem o político, nem o eleitor comum. Apenas negócios escusos, privilégios nas formas mais variadas e ilegais”. Não poupou adjetivos como “toscos”, “frios”, “subjetivos”, “imediatos”, que colocam em risco a nação inteira. Quem rouba implica a perda de autoridade moral, resvala no deixar roubar. Não há como dar certo um programa de governança num acerto de partição de butim. Nessa premissa o caos se acelera à medida que o tempo passa e os bandos ficam mais ávidos. Mesmo municípios ricos perdem sua capacidade de investir e patinam em dívidas ciclópicas, anulando sua capacidade de atender o cidadão. O assalto se dá na medida da disponibilidade gerada pela arrecadação. As dívidas se acumulam de uma administração perdulária passando num círculo vicioso para outra mais perdulária ainda. Na Bíblia se retrata o exemplo, que volta a ser atual, de Sodoma e Gomorra, as cidades que decaíram na perversidade e que o Senhor teria castigado deixando cair uma bola de fogo e enxofre que aniquilou tudo. Provavelmente, estamos caminhando por um tipo de solução bíblica da “destruição total” das administrações municipais para refazer das cinzas um novo sistema que restaure a lei do Criador. Tive que ouvir mais: “Apenas dinheiro, não interessa como e de onde vier, nem as consequências e reflexos. Rouba-se em obras, em remédios, em supersalários, em merenda escolar, em fantasmas e propinas generalizadas”. Isso se cumpre com insolente persistência num quadro de promiscuidade, de quadrilhas. Quase sempre a família do alcaide surge no município como a realeza de plantão loteando o poder e se esbaldando dele para negócios dentro do feudo. Na realidade, a impunidade do agente público pela falta de bloqueios de seus bens e da cobrança de devoluções, compatíveis com os prejuízos que gerou, devastou muitos municípios. Pessoas de bem e decentes num clima sem lei, sem respeito e sem valores éticos, pouco podem fazer. O banditismo está em seu ápice. Tentar uma limpeza, uma operação de resgate, parece um desafio impossível sem que a comunidade, sobre a qual recai o maior prejuízo, se mobilize em sua legítima defesa.

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