O continente rústico: viver e morrer em Minas - parte 2

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Serra, serra, serrador, quantos milhões de tabuas você já serrou?
Intervenção sobre pintura de Jean-Baptiste Debret
Serra, serra, serrador, quantos milhões de tabuas você já serrou?

Dona Anna Perpétua Marcelina da Fonseca era uma viúva de posses. Seu finado marido, o doutor Luiz José de Figueiredo, possuía “hua das mayores fabricas daquelle continente constante de 136 escravos de minerar matriculados na Intendencia dos Diamantes”. Mesmo tendo perdido parte da fortuna (continuo citando José Newton Coelho Meneses), ela ainda possuía, na época do inventário, 51 escravos, sete dados como fugidos. A importância maior de “O Continente Rústico”, de José Newton, é permitir uma visão detalhada da produção de alimentos e de vários aspectos da sociedade mineira daqueles tempos. Como o autor destaca, “é esse enorme volume de papéis, amarelecidos pela ação rigorosa do tempo e rendilhados pela arte das traças, que nos possibilita, mesmo que imperfeitamente, uma aproximação com homens e mulheres do passado, mortos/vivos que nos desnudam uma realidade vivida, para que nossa sensibilidade a apreenda”. MINAS E MINÉRIO A vocação mineira para a extração mineral é inegável. Começando pelo ouro fácil das margens e encostas de rios, chegamos aos diamantes que brotavam do chão. A riqueza quase inconcebível deste novo mundo despertou cobiça e atraiu milhares de aventureiros. Aos poucos, porém, com o esgotamento das jazidas superficiais, foram os garimpeiros obrigados a maior esforço para produzir menos, e a buscar aperfeiçoamento técnico. Uma das principais contribuições de José Newton é lembrar que “O vigor da economia de garimpo de diamantes persistiu até o final do século XVIII. Sua exploração, entretanto, era monopólio da Coroa portuguesa e, embora não se possa desprezar a possibilidade do garimpo de contrabando, pode-se perceber uma certa liberação de disponibilidades produtivas, tanto em mão-de-obra como em investimentos para outras áreas da economia, incluídos aqui a agropecuária, o comércio e manufaturas”. A vocação para “entregar o ouro” continua tão presente hoje quanto no passado. De nossas exportações, 65,45% são produtos primários, com com destaque para minério de ferro, com 43,15%, seguido pelo café com 11,29% (dados de 2010). Confrontando as duas épocas, separadas por 200 anos, quase nada evoluímos em termos econômicos, perdendo espaço para estados mais criativos e dinâmicos, São Paulo e Rio de Janeiro à frente. A MESA DOS DOENTES Parece que membros da família e escravos não se diferenciavam muito no quesito alimentação. Certamente haveria interesse econômico em cuidar de escravos doentes, mas não entraremos nessa questão. Importa saber o que comiam. Por exemplo: “Despesas dos escravos com bexigas, Miguelina mulatinha, Lautério mulatinho, Quintiliano crioulo, Paulina mestiça, e seu filho Policárpio. 3 dúzias de galinhas – 6 # ¾; 1 barril de caxaça – 1 #; 4 aroubas de carne seca – 5 #; 1 libra de Xá – # ¾. Do doente João José [provavelmente, segundo o autor, o filho mais novo (6 anos) de dona Anna]: 2 dúzias de galinhas – 4 # ½; 1 frasco de vinho – 1 # ¾.” “Em novembro, quem adoecera fora o filho mais velho da viúva, Luiz (...), que mais tarde viria a ser Escrivão da Junta e da Intendência dos Diamantes do Arraial do Tejuco.” “Despesas que fes o órfão Luiz com a moléstia. 1 dúzia de galinhas – 2 # ¼; Carne – 1 # ½; 1 vidro de vinagre – 4# ¼; Pão – 4 # ¼; ½ arrouba de asucar – 1 #; 2 frasquinhos de ágoa da Rainha – # ¼; 4 Libras de marmelada – # ¼; 1 dita de frangos – 1 # ½; dois frascos de vinho – 2 # ½; ½ d’ [?]de ágoa ardente do Reino – # ¾; Balcimo catolico – # ¼; 4 Libras de farinha do Reino – 1 #; 2 Libras de manteiga do Reino – # ¾.” Os valores (#) são expressos em oitavas de ouro. Os remédios, rotulados como “despesas de botica”, eram “Papoulas”, “Ágoa Rosada”, “Balsimo Catolico” e “Ágoa da Rainha”, que provavelmente cumpriam, pelos nomes, a função dos placebos atuais. A MESA DOS SADIOS “Existe [continua o historiador] certo risco de concebermos uma rusticidade à mesa do homem setecentista da Vila do Príncipe, do Tejuco ou do Fanado, que embote a visualização de uma realidade possível. As imagens daquele tempo, criadas hoje, nos mostram fidalgos portugueses, instalados nessas povoações, se alimentando de angu e couve com os próprios dedos. (...) Torna-se necessário admitir modos à mesa mais refinados por uma elite, mesmo que o gosto alimentar e a necessidade de alimentos diminuíssem as distâncias entre o que era consumido por ela e o que comia a população pobre.” Uma família abastada se alimentava então basicamente de carne, milho e sua farinha, fubá, arroz, feijão e peixes. Acrescentando-se, como faziam, leite, verduras e frutas, não difere muito do que se come hoje em dia, e talvez até melhor, já que incluía peixe, verduras e frutas, o que não é tão comum na vida cotidiana do mineiro moderno. BOTANDO A MESA A importância dos talheres era grande nos inventários. Dona Anna, por exemplo, possuía “pratos da Índia (rasos e fundos, grandes e pequenos), chocolateira de cobre, colheres, garfos e facas de prata, ‘faqueiro de prata com caixa forrada de veludo’, ‘1 talher de galhetas de vidro’ e bandejas diversas”. “Pessoas mais simples, de origem portuguesa ou não e, mesmo, pretos forros, podiam ainda que em menor grau, possuir objetos não tão rústicos como os normalmente visualizados para o período. É o caso do português, produtor de alimentos, José Ribeiro da Silva, que morava em seu sítio próximo ao arraial do Tejuco, que tem relatados em seu Inventário vários pratos, garfos, colheres e facas sem referência ao material do qual são feitos, outros pratos de ‘louça grossa’, mas, também, ‘2 colheres e 2 garfos de prata’ e ‘1 faca de prata’.” TIRANDO A MESA Nossa origem foi diversificada e às vezes trágica. Oriundos de Portugal, da África ou das inúmeras tribos das redondezas, eram assim nossos avós, plantando aqui suas esperanças, sonhos e roçados, muitas vezes regados com sangue, suor e lágrimas. Havia conflitos, desconfiança, mesquinharia e grandeza. Mas, pelo estudo da alimentação de nossa gente, vemos que a vida cotidiana tinha muito de prosaico e bem pouco de aventura.

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