Um gênero popular e as suas possibilidades

Amadas pelo público, comédias nacionais são multifacetadas, como aponta a crítica

iG Minas Gerais | Ludmila Azevedo |

Retomada. “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti marcou o ritmo de produções no país
atlântida/ divulgação
Retomada. “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti marcou o ritmo de produções no país

Unindo na mesma persona a faceta de dramaturgo e comediante, o italiano Dario Fo dizia que “a comédia faz com que a subversão do estado das coisas existentes seja possível”. Com um instrumento tão rico às mãos, é possível agradar por diversas vias: o escracho, a paródia, o nonsense, o sarcasmo. No cinema brasileiro, o gênero produzido com grandes orçamentos, forte apelo comercial e hegemônico nas salas lida menos com o aspecto subversivo, ao contrário do que corre por fora nos circuitos dos festivais.

Como lembra o crítico e cineasta Jefferson Assunção, o recorte mais comercial da comédia nunca foi o campeão de estrelinhas douradas por boa parte dos especialistas. “Historicamente, os filmes da Atlântida não foram tão bem-recebidos pelos críticos da época. Como em outras artes, em geral, esse valor é melhor compreendido com o passar do tempo. Aqueles longas eram paródias do produto norte-americano com um jeito bem brasileiro. Basta lembrar do Carlos Manga com ‘Matar ou Correr’ e ‘O Homem do Sputnik’”.

Marcelo Miranda, também crítico de cinema, completa: “Por mais que as chanchadas fossem acusadas de uma alienação, percebe-se por esse valor histórico que o gênero, que fazia críticas aos costumes, foi se empobrecendo ao longo dos anos. As comédias comerciais de hoje parecem querer perpetuar a mesma ideia. Mas quem sabe, por ironia, daqui a algumas décadas sejam vistas de outra maneira?”, sugere.

A mesma ideia em questão é quase um consenso entre os especialistas de que não dá simplesmente para os realizadores seguirem replicando o que funciona no teatro, na televisão e mais recentemente na internet, sem entender as especificidades da linguagem cinematográfica. “É uma base diferente. Essa história de pegar a câmera, reproduzir esquetes, com núcleos que não se relacionam entre si ou mesmo filmar a piada não convence”, ressalta Miranda. “Tudo é uma questão de timing, ritmo. Isso não acontece só no Brasil. O Seth MacFarlane, criador do ótimo desenho ‘Family Guy’, nos Estados Unidos, não obteve o mesmo êxito com seu primeiro filme”, completa Assunção.

Talvez desse tipo de observação, frequente em resenhas, venha a mítica de que a crítica torça o nariz para a comédia nacional tão popular entre o público – no ano passado, das 120 estreias de produções nacionais e 26 milhões de ingressos vendidos, o gênero abocanhou a maior fatia do bolo. “Muita coisa ruim foi feita nestes últimos anos e a crítica, fazendo o papel que lhe cabe, não poupou esses filmes. Daí se disseminou a impressão de que os críticos têm má vontade com a comédia nacional. E o problema dessa afirmação, como de toda assertiva, é o perigo da generalização”, diz Roberto Guerra, editor do site Cine Click.

Guerra, inclusive, acredita num cenário em transformação no que se refere às comédias com apelos mais comerciais. “O que vem chamando minha atenção é o aumento tímido mas progressivo da qualidade. De tanto errar uma hora se acerta. O público também começou a ficar mais seletivo e não engolir qualquer porcaria feita nas coxas. Isso vem fazendo os realizadores começarem a investir em qualidade dramática e não achar que recursos técnicos e atores globais bastam para agradar”, afirma o jornalista.

Alternativas. Algumas comédias, mesmo por diferentes méritos, acabam não chegando às salas onde os cinéfilos ávidos pelo riso se enfileiram. Despretensiosas, chamam a atenção em festivais, mas o caminho é mais tortuoso, como atesta Miranda. O aval de um curador renomado ou mesmo prêmios de júri nem sempre são suficientes nesse embate à la Davi e Golias, em que o gigante conta com uma máquina poderosa e de muito alcance midiático por trás, leia-se Globo Filmes.

“Em Tiradentes, neste ano, tivemos o ‘Batguano’, do Tavinho Teixeira. Ele é um filme de gênero, mas vai na contramão absoluta das comédias que vemos de maneira predominante em cartaz. Na sua proposta, a cultura pop, o escracho, a ironia são ingredientes de um humor que trabalha com figuras fortes do nosso imaginário (os heróis Batman e Robin)”, explica o crítico.

Outro exemplo, na mesma mostra, foi o mineiro “Aliança”, de Gabriel Martins, João Toledo e Leo Amaral. “Os diretores brincam com elementos icônicos de Belo Horizonte, chamam amigos para fazer uma ponta. Não há grandes ambições”, analisa.

Assunção concorda: “O filme é ousado, a equipe não ficou com medo dos rótulos. Por isso, criou situações de um humor mais ridículo e escrachado”. Mesmo que esses longas tenham mais percalços que os comerciais, vale a pena assisti-los, se chegarem ao cinema, pelo simples motivo de saírem da curva.

Marcelo Miranda acha que o país sempre teve bons exemplares de humor nas telas, mesmo quando é utilizado em outros gêneros. “Ninguém precisa deixar de lado uma certa ironia em prol da seriedade de um projeto. Diretores da velha guarda, como o Domingos de Oliveira e o Carlos Reichenbach, sempre fizeram isso muito bem. O Domingos retratando relacionamentos e o Reichenbach em filmes como o ‘Falsa Loura’. O Mateus Souza, entre os representantes da nova geração utiliza um tom irônico bem-colocado”, considera.

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