Por uma arte sem rótulos

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Antônio Sérgio Moreira - artista plástico
Benedicte Auvard
Antônio Sérgio Moreira - artista plástico

Com sua terceira exposição em cartaz em Paris, na galeria Philippe Lawson, o artista belo-horizontino comenta, na entrevista a seguir, realizada por e-mail, o que norteou a mostra promovida pela curadora francesa Bénédicte Auvard. Ele também reflete sobre o status da arte sublinhada como negra ou afro-brasileira no cenário atual do Brasil e em outros espaços internacionais.  A exposição “Têtes Insolites, Insolites Passages” acolhe trabalhos que resumem um pouco a sua trajetória nas artes plásticas até o presente? A que esse título se refere? As obras da exposição de Paris mostram um percurso que aborda alguns temas recorrentes no meu trabalho. As “Tetês Insolites”, que produzo desde 1991, são uma forma da representação da cabeça, um invólucro que guarda registros de conhecimentos, ou seja, a memória abstrata torna-se elemento poético no meu trabalho. Já as “Insolites Passages” são esses deslocamentos entre cidades, estados e países, que já ‘experienciei’ por quase 30 anos até chegar ao Saint-Germain-des-Prés, bairro de Paris. Há uma seleção variada de criações, como pinturas e instalações concebidas em diferentes épocas. 

Você identifica nelas momentos diferentes de sua produção, portanto?

A exposição “Opinião 65”, realizada na cidade do Rio de Janeiro, abordava a nova figuração na arte brasileira, proposta em 1965 pela galerista Ceres Franco e Jean Boghici, o que veio me influenciar anos depois na forma de criar minhas narrativas artísticas. Mas também abstraio quando quero alguns elementos e construo novos diálogos. Um dos trabalhos, “Invólucros”, reflete a ressonância e a confluência da possibilidade de traduzir percepções e reflexões sobre a arte e o espaço que ela ocupa na minha visão de mundo. A instalação “O Corvo de Berlim” foi um processo vivido durante um mês na cidade alemã, entre 1996 e1997. Lá, andei durante um mês, seis horas por dia pela cidade visitando galerias, museus e espaços culturais. A proposta era não dizer nada, não falar quem era e nem o que eu fazia, mas construir uma visão do que se produzia em termos de valores artísticos naqueles lugares. Um flâneur, que caminhava todos os dias e na volta para o estúdio desenhava nas páginas de um livro-objeto as percepções do dia. Quando retornei ao Brasil inseri na instalação o casaco e os tênis gastos de caminhar que usei durante a viagem.

Como essas obras também se relacionam com o seu estudo das culturas africanas e afro-brasileiras? Elas, ao seu ver, refletem o contato com alguma tradição?

A arte africana influenciou diversos movimentos e artistas no mundo. No meu caso, algumas obras são resultados de anos de pesquisas dentro do universo cultural africano e afro-brasileiro das religiões de matrizes africanas. Mais especificamente, a religião Nagô do povo Iorubá da Nigéria. A instalação “Objeto Oriki: Corpus e Habitus = Arte”, que recebeu dois prêmios: II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileira – Edição 2011/2012 – e melhor projeto a nível nacional na Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura, é um deles. Essa mesma mostra foi vista no Museu de Arte Assis Chateaubriand, da Paraíba, e deve circular em outros cinco museus do Brasil. Os meus estímulos criativos vêm do expressionismo africano, dos signos de referência, da herança e do expressionismo europeu. Não pretendo “retratar” os deuses, mas o núcleo que move todo esse conhecimento.

Em um texto seu de 2003, mesmo ano que foi promulgada a Lei 10.639/03, que tornou obrigatória a introdução da história africana e afro-brasileira no currículo escolar, você discute algumas questões relacionadas aos termos arte negra e arte afro-brasileira. Que visão você têm hoje do modo como lidamos com esse assunto? Essa classificação abriu caminhos para pensar no lugar dos artistas negros ou afro-brasileiros? Avançamos desde então na maneira como compreendemos a arte brasileira ou não?

O que é arte negra? O que é arte afro-brasileira? Sabe o que as duas têm em comum? Elas não participam do eurocentrismo das artes, do universo dominado por homens, pela desigualdade branca, por um mercado racista, capitalista e excludente. Não avançamos em nada. A arte contemporânea não abriu muito espaço aqui no Brasil para o corpo negro, não cabe o rótulo de afrodescendente porque não existe esse espaço no mercado de arte brasileiro. Não havendo espaço, não temos artistas. A mulher negra que produz arte estará em desigualdade na disputa junto com o universo masculino também. Então esse espaço no Brasil é também outra forma de total invisibilidade, a mulher ainda está à margem nas escolhas e sem espaço. O mundo das artes ainda é masculino e branco. Nossos expoentes femininos e masculinos do corpo negro que produz arte no Brasil ainda são quase imperceptíveis para o contingente de artistas e para uma população de milhões de habitantes.

No ano passado foi inaugurado o primeiro curso de arte não-europeia do país, vinculado ao departamento de história da Unicamp, e que tem o intuito de abarcar a arte africana, ameríndia, pré-colombiana, entre outras. O que esse fato, especialmente se pensarmos na grande contribuição dos povos africanos na formação da cultura brasileira, representa ao seu ver?

O jovem brasileiro deve apreender mais sobre o universo cultural africano e precisamos compreender mais os valores dos intelectuais africanos francófonos, como o Cheikh Anta Diop, historiador e antropólogo senegalês que estudou as origens da raça humana e a cultura africana pré-colonial. Devemos compreender que o Egito foi também referência para alguns filósofos gregos, porque já estava lá há muitos anos. O eurocentrismo da arte ocidental constrói no imaginário de muita gente do mundo que ele é soberano. Chamar arte africana de primitiva é um paradoxo. O europeu inventou uma forma para comercializar aqueles objetos que eles roubaram, deslocaram de um universo, de um contexto, classificando os de arte. Mas depois disseram que não era tão arte assim! O que é arte primitiva? Valorizamos por demais a cultura do outro e os museus dos outros.

A partir de sua experiência em exposições em países europeus, africanos, além do Brasil, há uma diferença entre o olhar estrangeiro e o brasileiro para a sua arte?

O “exótico”, palavra preconceituosa para definir aquilo que não conhecemos na verdade. O povo brasileiro é preconceituoso. Para uma nação de mais de cento e oitenta milhões de habitantes temos poucos artistas negros. Porque são negros e pobres? Arte popular é o quê? É arte feita por pobres? Isso é o que pode acreditar o Brasil. Mas esse não é o olhar do mundo! Minha arte é como de muitos artistas da Afro-América, carregada de simbolismos e elementos de significância. O preconceito brasileiro pode me excluir de alguns espaços. Qual é o olhar do brasileiro ou do europeu? Isso não me interessa. Mas, se um artista não consegue ser lido pelo povo da sua tribo, muda de tribo! Na abertura da exposição tive a honra de receber um discurso do embaixador honorário do Senegal em Paris, Henri Arphang Senghor, neto do ex-presidente Léopold Sédar Senghor (1906-2001). O verdadeiro artista deve fazer arte para o mundo. 

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