O monstro somos nós

Humberto Mauro reinicia hoje retrospectiva do noir, gênero que permanece influente na exploração da maldade

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Clássico. Barbara Stanwyck seduz e manipula o detetive vivido por Fred MacMurray em “Pacto de Sangue”.
Paramount
Clássico. Barbara Stanwyck seduz e manipula o detetive vivido por Fred MacMurray em “Pacto de Sangue”.

O marido de Barbara Stanwyck em “Pacto de Sangue” – um dos títulos da segunda parte da mostra “Desejo e Morte – Cinema Noir”, que retorna ao Humberto Mauro a partir de hoje com novos filmes – não é um sujeito ruim. Ele é ausente, um pouco desatencioso, mas não mau. Ainda assim, com meia hora de longa, o espectador está torcendo para que ele morra.

“O público é atraído pelo lado sombrio”, sintetiza o pesquisador de cinema Carlos Primati. Essa é a definição do noir: um cinema em que a maldade é sedutora e envolvente, não por seu glamour, mas porque é parte inerente de cada um de nós. Como diriam os Stones, “estupro e morte estão a um tiro de distância”, mas é fácil sentir uma “empatia pelo demônio”.

Segundo Primati, as raízes desse mal são históricas e estéticas. A principal delas é a Segunda Guerra. “Não é por acaso que a entrada dos EUA no conflito, em 1941, coincida com o lançamento do ‘Falcão Maltês’, considerado o primeiro noir”, aponta.

Com a miséria assolando a Europa e o esforço de guerra, a ostentação de “E o Vento Levou” não faz mais sentido, e o orçamento das produções cai significativamente. “Grande parte do claro/escuro desses longas é para esconder a pobreza dos cenários, que é só uma mesa, um telefone, uma escrivaninha”, explica o pesquisador. Ele acrescenta ainda que esse tipo de filme era muitas vezes usado pelos estúdios para testar novos diretores que, na tentativa de se provarem, traziam uma ousadia ausente em outras produções.

Acima de tudo, a Guerra faz dos anos 1940 a década do pessimismo nos EUA. E nos anos 50, em que o ciclo noir segue, a ameaça nuclear cria um inconsciente coletivo de que o mundo está acabando e nada vai dar certo. “O noir é a história de amor sem final feliz, o assalto de banco em que todos se ferram. Todo mundo é ruim e todo mundo se dá mal”, analisa, comparando ao cinema de terror da década de 30, em que monstros como Frankenstein e a Múmia representam a calamidade da Grande Depressão.

Desolamento moral. Para Primati, o que o noir faz é pegar essa maldade intrínseca do terror deixando o monstro mais difuso. “A Lana Turner é o monstro”, provoca. Ao contrário de outras produções da época, o gênero esquece a satanização fácil dos japoneses e alemães e mostra o mal interior. E isso só é possível, segundo o pesquisador, porque o noir é feito em grande parte por diretores, técnicos e atores alemães e/ou judeus refugiados.

“Eles eram muito próximos dessa alma sombria e sentiam o arrasamento moral do que acontecia na Europa”, avalia. “Casablanca” é um dos exemplos mais sintomáticos, em que o diretor Michael Curtiz e o ator Peter Lorre são judeus húngaros, e Conrad Veidt é alemão. Primati explica que o que esses imigrantes fazem é importar a estética do expressionismo alemão – o uso de sombras, cenários assustadores – e aplicá-la no cinema urbano e moderno dos anos 1940.

O que os EUA vão trazer de novo para esses talentosos profissionais é que, enquanto o expressionismo era um gênero essencialmente mudo, o noir é eternizado por diálogos trazidos pela literatura pulp. As limitações impostas pelo Código Hays – que impedia que armas fossem apontadas para alguém, o consumo de bebidas ilícitas, jogatina, entre outros – aguçaram nesses realizadores uma criatividade sem igual na história de Hollywood. Filmes como “Pacto de Sangue” e “À Beira do Abismo” conseguem falar sobre sexo o tempo todo, sem um pingo de vulgaridade.

“Lembro vários diálogos geniais de ‘Falcão Maltês’, mas a trama não sei mais explicar”, brinca Primati. Para ele, é esse ultrarrealismo moderno, reforçado pela riqueza dos diálogos, que faz o noir permanecer atual, relevante e influente.

Esse afloramento da parcela sombria das pessoas em um cenário urbano e comum se faz presente desde os anos 1970 (“Chinatown”), passando por “Corpos Ardentes” (uma quase refilmagem de “Pacto de Sangue”) e David Lynch (“o noir fascinado pelo bizarro”) nos 80, pelos irmãos Coen (“Gosto de Sangue”, “Onde os Fracos não Têm Vez” ou “Fargo”, uma comédia noir) até a recente série de TV “True Detective”. “Ele lida com a maldade e a dualidade, com a personalidade mal resolvida e dissimulada do ser humano. Mostra que o lado mau é algo muito natural e próprio de todo mundo”, argumenta.

No Brasil, porém, o noir nunca pegou. “O cinema de gênero nacional sempre cai no deboche. Não herdamos essa miséria pesarosa que os alemães levaram para os EUA e, inacreditavelmente, transformaram em um produto comercial”, lamenta.

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