Onde você guarda o seu ódio?

iG Minas Gerais |

Neste mês o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, publicou um mapa de redes de admiradores das Polícias Militares no Facebook. Por meio delas, páginas correlatas que defendem, por exemplo, a volta da ditadura militar surgiram. Afinal, na rede social de Mark Zuckerberg é assim: curtiu Chanel, vem a sugestão de Karl Lagerfeld, por aí vai. O que os pesquisadores trouxeram à luz por trás desse tipo de manifestação – com milhares de likes, diga-se de passagem – foram discursos inflamados contra os direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais e de outras minorias. Os famosos “justiceiros” são legitimados nessas fanpages e o linchamento é livremente defendido. Conceitos tortos de moralidade (o que é, afinal, uma família?) e de religião (ao que me consta, Jesus andava com os excluídos) fazem parte daquilo que muitos atribuem erroneamente à “liberdade de expressão”. Li a entrevista na íntegra no site Outras Palavras, mas confesso que, por mais assustador que seja o desenho, ele não me surpreende. Essa massa conservadora é, ao menos e na pior das hipóteses, organizada de tal modo a ser mapeada. Está todo mundo ali de cara limpa, disposto a aceitar um pedido de amizade. Quem eu temo é justamente aquele ilustre desconhecido, conhecido ou “amigo de Facebook” que vai até a minha timeline e se posiciona estrategicamente como num ringue de boxe. Ao sinal, ele entra numa postagem minha contrária ao espancamento de um menor que roubou um relógio, por exemplo, e começa a me bater também. Aos poucos, por defender direitos humanos, também sou amarrada, acuada. Não se chega a lugar algum com o clichê: “E se fosse o relógio da sua mãe?”. Se fosse, eu me preocuparia unicamente com o bem-estar dela. Um objeto é um objeto, mesmo que tenha pertencido a minha avó. Quanto ao assaltante, deixo para a Justiça. E o ponto está aí: é dela que devo exigir eficiência. O “amigo de Facebook” não se dá por vencido. Sugere armas e ações tão mirabolantes que interessariam a Quentin Tarantino em seu próximo filme com cérebros explodindo. Ao perceber que não irá me convencer, me chama de “Pollyanna”. Pois saiba, meu caro amigo, a última cor que eu enxergo neste mundo é a rosinha. A vida só é em rosa na canção de Piaf. E é isso que, invariavelmente, esses seres que caem de paraquedas em sua vida virtual fazem: encerram o debate de maneira irônica ou ofensiva. Quando eu leio que um inocente foi preso ou morto porque foi confundido com um “bandido” nessa sede de justiça, abro aquela minha gaveta condenável – porque somos humanos e não cultivamos apenas os ensinamentos de compaixão do Dalai Lama – e pego o meu ódio. Eu vou ao mural do “amigo de Facebook”, pergunto se ele está satisfeito. Escrevo, reescrevo e, por fim, apago. Depois, penso na indireta, um dos recursos favoritos dos facebookianos. Às vezes, resisto à tentação. Às vezes, não. Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e redatora do Magazine. Ela divide este espaço com Jack Bianchi, Lobo Pasolini, Mariana Rodrigues, Tereza Cristina Horn e Silvana Holzmeister

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