Decepção campeã

iG Minas Gerais |

Quando a seleção masculina de vôlei conquistou a medalha de prata na Olimpíada de Los Angeles (EUA), em 1984, o pontapé inicial para tornar o país a maior potência do esporte no mundo era dado, mesmo que, na época, não se pudesse imaginar isso. Até então, o basquete era o segundo desporto mais popular do Brasil, pois já havíamos vencido dois mundiais masculinos, em 1959 e em 1963. O vôlei tinha um status quase amador e sem nenhum apelo junto ao público e, consequentemente, na mídia. Porém, a geração de prata, com William, Xandó, Amauri, Montanaro, Badalhoca, Renan, Fernandão, Domingos Maracanã, Bernard e Marcos Vinícius, abriu os olhos do Brasil e do mundo para o vôlei nacional. Por falar em Bernard e Marcos Vinícius, esses dois serão comentados mais à frente nessa coluna, pois estão correndo o risco de jogar fora suas grandes histórias como atletas, que tão bem representaram nosso país nas quadras. O estouro do escândalo na Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), com fortíssimas evidências de que muito dinheiro público foi desviado de contratos com o Banco do Brasil, começa a desnudar a até então intocável administração do vôlei brasileiro. Embora o Banco do Brasil afirme que os contratos foram firmados diretamente com a CBV, o jornalista Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, mostra, por meio de documentos do Tribunal de Contas da União (TCU), que empresas dos ex-diretores da CBV Marcos Antônio Pina Barbosa e Fábio André Dias Azevedo receberam comissões de milhões reais pelos contratos assinados “diretamente” entre a entidade e o banco estatal da União. Logo depois da revelação do escândalo, Barbosa se desligou da CBV. Já Azevedo havia saído antes para ser o número dois da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), hoje presidida por Ary Graça Filho, que, ontem, coincidentemente, divulgou que abriu mão de ser o presidente licenciado da CBV para se dedicar à FIVB. Nesta semana, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, disse, visivelmente constrangido, que as denúncias devem ser apuradas rigorosamente. Para quem não lembra, Nuzman, que está no COB há anos, foi o grande responsável pela estruturação do vôlei nacional e presidiu a CBV por longo período. Em 1997, o TCU já apontava irregularidades na relação entre o Banco do Brasil e a CBV, que tinha um novo presidente, Ary Graça, que entrara no lugar de Nuzman. O relator do processo no TCU foi o ministro Adhemar Paladini Ghisi, sogro de Bernard, hoje um dos mais importantes colaboradores de Nuzman no comando do COB, assim como Marcos Vinícius. O curioso é que Ghisi não era, a princípio, o relator do processo. O titular ficou doente e seu substituto também alegou problemas de saúde. Em um sorteio, o caso veio para o sogro de Bernard, que, mesmo diante de tantas evidências, o deu por encerrado. Fico pensando nos empresários que investem no vôlei nacional, nos atletas que se esmeram tanto nas quadras e nos torcedores do vôlei brasileiro. Como devem estar se sentindo? Lembro também dos atletas olímpicos do Brasil, que deveriam ser assistidos pelo COB, do senhor Nuzman. A campeã olímpica Maurren Maggi está tendo que fazer vaquinha para treinar. O campeão olímpico e mundial Arthur Zanetti teve que recorrer a uma passeata para receber salários atrasados de uma prefeitura qualquer, pois precisa desse subterfúgio para continuar treinando em alto nível.

Solução. Desdobramentos do escândalo dão conta de que o competentíssimo Bernardinho, técnico da seleção masculina e do time feminino do Unilever, seria o responsável pelo dossiê com os documentos aos quais a ESPN Brasil teve acesso, pois estaria estarrecido com o que vinha acontecendo na CBV. Teria até indicado pessoas de sua confiança, como Renan e a também ex-atleta e musa Leila, para a CBV. Os dois estão na entidade.

Só que não! Não há dúvida de que a intenção de Bernardinho pode até ser boa, mas fica muito esquisito um técnico de um time da Superliga feminina “ter” pessoas suas na CBV, mesmo que elas sejam, até que se prove o contrário, idôneas. Se o Bernardinho quer arrumar o vôlei brasileiro, que deixe de ser técnico e passe a dirigente. É bom lembrar que ele foi cogitado para candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PSDB. Já negou que será. Será? 

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