As cores do jazz

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“A arte é o imponderável, algo que está antes de a descobrirmos, tudo que nos afeta na alma”
Roberta de Castro/divulgação
“A arte é o imponderável, algo que está antes de a descobrirmos, tudo que nos afeta na alma”

O artista plástico e professor Marcos Venuto é um bom companheiro, e ninguém pode negar. Ele é “cool” como a música de John Coltrane.  Desce a pé, tranquilamente, da Escola Guignard, no Mangabeiras, até a Savassi, onde, com moderação, sorve sua cervejinha, derramando inteligência, humor e bom gosto. Mais e melhor a seguir.

Venuto. Esse nome é siciliano. Explique-se rsrsrs... Dizem algumas línguas da “famiglia” que vieram dois da Sicília, não sei se é Messina. Eles foram trabalhar na construção da ferrovia Salvador/Chapada Diamantina. De lá, desceram até Diamantina, onde nasci. Artista plástico e professor na Guignard. Dá aulas de quê? Bem, neste ano faço 25 anos como artista plástico e faz 15 anos que leciono na Guignard desenho e aquarela. Qual sua definição de arte? Difícil de responder, mas comento com meus alunos que a arte é o imponderável, algo que está antes de a descobrirmos, tudo que nos afeta na alma. O ofício do artista é iludir para mostrar a contemplação estética, uma mentira boa! Você leu a entrevista com o colecionador Ralph Camargo (na “Veja”), falando sobre a atual mediocridade da arte? Li um trecho e não discordo dele, acho também que há muita espuma e pouca água nesse mar, mas a história nos ensina que o que for bom permanece. Lembro-me da obra de Vermeer, foi aparecer só 200 anos depois, e ninguém discute sua qualidade. O que acha do mercado e das galerias de BH? Já foi mais restrito, principalmente nos anos 80, quando comecei. Com Inhotim, o mercado se modificou e até surgiram pequenas galerias, iniciativas de jovens artistas daqui, como a Minigaleria, que já fechou. E dos críticos? Desapareceram. Aqui já foi celeiro de críticos, nacionalmente, mas parece que a crise da crítica é geral; muitos pesquisadores, muita reflexão, mas pouca produção crítica; parece que as pessoas têm medo de se pronunciar. Como anda sua produção conciliada às aulas? Tenho material acumulado e inédito desde 2005. Desenhos, aquarelas e pinturas. É muito difícil a conciliação com o mundo acadêmico. Resolvi o problema diminuindo os tamanhos das obras para levá-las comigo. Isso nossa imobilidade urbana me permite fazer. Você estava produzindo aquarelas? Sim, virei um aquarelista, foi um desafio. É uma técnica que tem tudo a ver com a história do Brasil. Os aquarelistas, nas viagens dos europeus, eram como os fotógrafos das expedições. É de execução limpa e posso levar para qualquer lugar. O Carnaval, a Copa do Mundo, as eleições, o Brasil de 2014 inspiram ou deprimem você? Esse ano parece que será deprimente. Logo agora que farei 50 anos, acho que nem vou comemorar. Que música, hoje, seria a trilha sonora? Para trabalhar, John Coltrane. Me ajuda a pintar, técnica que precisa de muito vigor físico, pintar me exaure, um ótimo cansaço, principalmente o álbum “A Love Supreme”, clássico do jazz. Quando faço aquarela, nada melhor que o Erik Satie e suas “Gymnopédies”, mas para a vida sou muito eclético, um pouco de tudo, do punk rock à bossa nova, mas nunca sertaneja e funk.

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