Memórias de um jornaleco subversivo

Entrevistas de ‘O Pasquim’ viram série com 13 episódios

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Marco. Janaína Diniz dá vida na série a Leila Diniz, sua mãe e responsável por uma das entrevistas mais polêmicas do jornal
fotos: juliana torres / divulgação
Marco. Janaína Diniz dá vida na série a Leila Diniz, sua mãe e responsável por uma das entrevistas mais polêmicas do jornal

Mesmo criança, André Weller já era um admirador do jornal “O Pasquim” (1969-1991). O passar das páginas era uma experiência reveladora, que causava risadas e contribuía para construção de seu futuro senso crítico-político. Sob influência do periódico, tornou-se diretor de arte e de cinema, ainda na juventude.

Seu último trabalho neste ramo é uma série de 13 episódios de 25 minutos cada sobre as entrevistas do icônico jornal. O programa “As Grandes Entrevistas do Pasquim” vai ser veiculado pelo Canal Brasil a partir do segundo semestre deste ano.

“Ao longo da minha vida, eu li diversas vezes as entrevistas do jornal. Mas foi ao reler uma do Agnaldo Timóteo, do ano de 1972, que percebi o potencial cênico contido nas entrevistas”, conta Weller.

Munido do conceito inicial para idealização do programa, Weller elaborou o formato da série que foi apresentado para o canal pago de TV e também para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA): a mistura de leituras das entrevistas escolhidas por atores convidados e depoimentos de antigos entrevistados sobre as próprias entrevistas que concederam. A ideia foi aceita por ambas instituições.

Não era para menos, a proposta vai além de resgatar a memória de um dos principais jornais do Brasil ao dissecar entrevistas de pessoas notórias. “A ideia é apresentar ‘O Pasquim’ para uma geração que pouco o conhece, por meio de fatos interessantes como a entrevista que Lula deu em 1979 para o jornal. Afinal, hoje em dia, o nome do jornal virou apenas nome de ator da Globo”, ironiza o diretor.

O time de personalidades marcantes e de relevância nacional que passou pelas mãos da turma de entrevistadores de “O Pasquim”, composto por Jaguar, Millôr Fernandes, Ziraldo, entre outros, vai muito além daquelas escolhidas para a série. “Ao todo, ‘O Pasquim’ realizou 1.702 entrevistas”, lembra o roteirista do programa e jornalista do antigo jornal durante 14 anos, Rick Goodwin.

A quantidade, a diversidade e a qualidade das entrevistas realizadas pelo periódico – conhecidas pela informalidade e oralidade – foram grandes obstáculos para a curadoria. “Seria difícil escolher cem entre elas, imagina 13?”, afirma Goodwin.

Para facilitar, foram estabelecidos alguns parâmetros. O principal deles era que o conjunto de entrevistas selecionado deveria mostrar a essência de “O Pasquim”, conhecido principalmente por tratar a política com humor ácido.

Dentro desse escopo, foram escolhidas entrevistas com Leila Diniz, Teotônio Vilela (sobre as Diretas Já!), Madame Satã, Elke Maravilha, Chico Buarque, Agnaldo Timoteo, Luiz Carlos Prestes, Tostão, Fernando Gabeira, Dina Sfat, Jânio Quadros, Cazuza e Lula.

Essência. Com o objetivo de oferecer uma experiência ímpar ao espectador, Weller conta que utilizou também outros recursos, como a cenografia e a música, para tentar levar ao programa a alma do jornal e o contexto histórico-social daquele período. “As entrevistas foram feitas na própria casa deles e utilizamos muitas músicas para dar ideia da época”, adianta Weller.

Além do cenário cultural, a política é um tema recorrente nos capítulos da série. “O tema censura é abordado em todo os 13 episódios”, comenta. E não poderia faltar. “O Pasquim” foi um dos jornais que mais acompanharam e criticaram esse período da história do Brasil em que o governo controlava as publicações midiáticas.

Embora as entrevistas sejam o carro-chefe do programa, as famosas fotonovelas ganham nova roupagem e farão parte dos episódios. Ainda para garantir a essência do periódico, a edição das leituras foi reduzida. “De propósito, deixamos as falhas e momentos em que os atores estão conversando com a produção para dar o ar de informalidade que as entrevistas de ‘O Pasquim’ tinham”, diz Goodwin.

Apesar do esforço, a verdade é que tanto Weller quanto Goodwin sabem que há muito mais a se falar sobre o jornal e da época em que ele existiu. Por isso, uma segunda temporada não está fora de cogitação para eles. “Material é o que não falta”, brinca Weller, se referindo ao número de entrevistas feitas pelo jornal.

Ele ainda admite ter realizado um sonho, mesmo sem a definição sobre uma continuação: “Tenho certeza de que agora faço parte da história de ‘O Pasquim’”, conclui.

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