Obra investiga a tortura pelo olhar da psicanálise

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes lança o livro “Tortura”, no Conservatório da UFMG

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Militância. Maria Auxiliadora participou de movimentos pela anistia e contra a tortura no Brasil
AE/ARQUIVO
Militância. Maria Auxiliadora participou de movimentos pela anistia e contra a tortura no Brasil

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha vem observando desde a década de 1970 o efeito devastador dos processos de agressão física e psicológica envolvidos na prática da tortura. A inquietação com o tema a levou a produzir tese de doutorado defendida por ela em 2011, no programa de Ciência Sociais da PUC de São Paulo. A partir desse estudo, ela concebeu o livro “Tortura” (editora Casa do Psicólogo, 406 págs., R$ 65), que tem lançamento hoje, no Conservatório da UFMG.

Na obra, a pesquisadora analisa a questão a partir de conceitos da psicanálise e também da experiência de vítimas desse tipo de violência. “Quando fui escrever este trabalho eu vi que seria impossível falar sobre o que conheci durante a ditadura, quando estive também na clandestinidade política, por 12 anos, apenas teoricamente. No meu mestrado, eu estudei essa condição de clandestinidade e ali tive contato mais direto com relatos de tortura. O que fiz depois foi retomar alguns deles, não por meio de entrevistas, mas colhendo testemunhos”, explica a psicóloga Maria Auxiliadora de Almeida Cunha.

Aos depoimentos de prisioneiros políticos do Brasil ela somou outros de pessoas que passaram por situações semelhantes em outros lugares do mundo, por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra da Argélia (1954-1952).

“Optei por solicitar esses textos de brasileiros porque assim eu teria acesso a um relato que certamente não conseguiria por meio de uma entrevista. Todos eles já haviam falado sobre esse tema em outras situações, seja para a Secretaria de Segurança ou para outras comissões públicas. A junção desses exemplos, com testemunhos de casos internacionalmente conhecidos, contribui para ampliarmos a visão sobre esse tipo de crime que é demasiadamente humano”, observa a autora.

Ao fim desse percurso, Maria Auxiliadora concluiu que a tortura, e seu uso perverso ao longo de diversas épocas da história da humanidade, está relacionada a uma traço obscuro da personalidade humana. Tal percepção incômoda ela atribui ao modo racional como essa é praticada é executada.

“Eu achava que somente humanos muito desestruturados emocionalmente ou eticamente revelariam algum traço para serem torturadores. Mas conclui que não é bem assim, pois em torno disso há um processo de escolha. Mesmo quando foram mandados, eles exerceram a tortura racionalmente. Essas pessoas foram preparadas para agir dessa maneira e o fizeram a partir de um aparelho sustentado por instituições do governo e até pelo empresariado”, concluiu a pesquisadora.

Agenda

O quê. Lançamento do livro “Tortura”, de Maria Auxiliadora de Almeida Cunha

Quando. Hoje, às 11h

Onde. Conservatório da UFMG (av. Afonso Pena, 1.534, centro)

Quanto. Entrada franca

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