Longas, entrevistas eram regadas a álcool e humor

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Em um episódios, Ana Kutner representa sua mãe, a atriz Dina Sfat
juliana torres / divulgação
Em um episódios, Ana Kutner representa sua mãe, a atriz Dina Sfat

Se as entrevistas de “O Pasquim” fizeram tanto sucesso e agora ganham o programa “As Grandes Entrevistas do Pasquim” no Canal Brasil, que estreia no próximo semestre, é porque, além dos furos jornalísticos e das perguntas sagazes da equipe, elas eram feitas com profundidade e muita diversão.

É isso que avalia o roteirista do programa e jornalista de “O Pasquim” por 14 anos, Ricky Goodwin. Ele conta que todas as entrevistas eram regadas a uísque. “A ideia era que os entrevistados ficassem cada vez mais à vontade para que pudessem falar o que pensavam. Por isso passávamos quatro, cinco horas fazendo essas entrevistas”, relata.

Bebida alcoólica, o tempo e a sagacidade dos entrevistadores renderam não só boas e revolucionárias entrevistas – com a concedida por Leila Diniz, cuja publicação deu origem a um decreto com nome da atriz, em 1969, que instaurou a censura prévia à imprensa –, mas inusitadas histórias.

Uma delas se refere ao ex-presidente da República Jânio Quadros. Ele estrelou uma das páginas do periódico enquanto estava afastado do cargo. Em sua casa em São Paulo, recebeu a turma de jornalistas durante uma tarde em que almoçaram e beberam muito. “No final, ele e o Jaguar foram encontrados deitados no chão do jardim e estavam sendo lambidos por cachorros”, narra o diretor do programa, André Weller.

Para ele, cenas como essa representam o diferencial das entrevistas de “O Pasquim”. “Mostrar a figura humanizada de um homem como Jânio Quadros, de maneira informal, é muito difícil. E eles conseguiram fazer isso não só com ele, mas com todas as fontes”, comenta.

Outra situação inusitada aconteceu na entrevista com Agnaldo Timóteo. Quando a equipe chegou para entrevistá-lo, ele estava parado segurando um dicionário e ao ser questionado sobre o porquê do livro, ele respondeu: ‘Quero entender todas as palavras difíceis que vocês usam’”, conta Weller. Nesse período, o cantor era venerado pelo povo, mas criticado pela imprensa.

Brigas. Engana-se quem pensa que tudo sempre ocorria como planejado com a equipe de jornalistas de “O Pasquim”. A primeira entrevista, inclusive, foi marcada por desencontros que deram origem à chancela do jornal: a ausência de edição.

Depois de registrar a primeira entrevista em um gravador, Jaguar a transcreveu. Porém, quando seus colegas Sérgio Cabral e Tarso Castro pediram que ele fizesse o “copy desk” – termo adaptado pelo jornalismo brasileiro que significa revisar e editar o texto antes da publicação –, ele não o fez, por não conhecer o termo. O resultado foi a publicação dá entrevista sem cortes.

O caso isolado gerou benefícios, porém, a história do jornal também foi marcada por desentendimentos entre integrantes da equipe. “Eles brigavam muito. Tanto entre eles mesmos, como com os entrevistados. Às vezes, o pau quebrava e era complicado transformar tudo aquilo em texto”, relata Goodwin, que acompanhava as entrevistas, mas não bebia.

Independente disso, “O Pasquim” grifou a vida de todos que passaram por lá. “Rapaz, participar do jornal foi minha melhor escola. Eu tive a oportunidade de estar presente em entrevistas históricas que eram feitas num cenário muito raro para os jornalistas de hoje. Tínhamos tempo e nos aprofundávamos na vida do entrevistado. Atualmente, as conversas são feitas com muita pressa e, na maioria das vezes, por telefone”, compara Goodwin.

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