Fernandinho, o guerreiro que não quer nem pensar em deixar o Atlético

Meia-atacante viveu um drama no início da carreira, mas incorporou o espírito guerreiro tão ligado com a história alvinegra e hoje é destaque no Galo

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Fernandinho teve propostas de outros clubes, mas escolheu o
BRUNO CANTINI/ATLÉTICO
Fernandinho teve propostas de outros clubes, mas escolheu o "especial" Atlético

O discurso comum de quem vê o sucesso dos jogadores de futebol em grandes clubes e seleções é de que "a vida de jogador é muito fácil". A equivocada ideia, no entanto, exclui o início de carreira dos futebolistas e os atletas que atuam em equipes menores. Esse é o caso de Fernandinho, meia-atacante do Atlético, que precisou passar por um drama antes de se tornar profissional e realizar o sonho de criança.

Nascido em São Paulo mas criado em Pernambuco, o jogador tentou iniciar sua caminhada no Santa Cruz, clube tradicional e uma das três forças do Recife. O então garoto Fernandinho, no entanto, reprovou nos dois primeiros testes. Na terceira vez veio a felicidade da aprovação, mas uma grave contusão transformou a alegria em dor e tristeza. Fernandinho fraturou a bacia e, por pouco, a história não foi pior.

O futuro, porém, reservou muitas alegrias e a realização de seu sonho depois de tantos momentos difíceis. Em entrevista exclusiva ao Super FC, Fernandinho contou a história do início de sua carreira e o momento vivido no Atlético, o clube que ele “nunca vai esquecer”.

Confira a o bate-papo de Fernandinho com a reportagem:

Você chegou ao Atlético para substituir Bernard, garoto que é ídolo da torcida. Parte dos torcedores e da imprensa via sua contratação com desconfiança, mas você respondeu em campo. Esperava esse sucesso imediato?

Quando você é contratado por um clube como o Atlético, principalmente pelo momento especial que estava vivendo e segue vivendo, você quer chegar fazendo bonito. A responsabilidade de substituir um garoto que é ídolo e não conquistou esse rótulo à toa, pois mereceu e saiu daqui com um título muito importante para ele e para a história do Atlético, é enorme. Mas o trabalho, a determinação, o caráter e a fé em Deus me ajudaram a viver esse momento bom que estou vivendo.

 

A fase no Atlético é a melhor da sua carreira?

Já vivi bons momentos, mas esse no Atlético é especial. Sou muito grato ao Atlético. Eu não tinha o objetivo de voltar para o Brasil no ano passado, mas pela proposta do Atlético, resolvi voltar pela forma que o time joga e as peças que o time tem. Recebi convites de outros clubes do Brasil, mas escolhi o Atlético. O Galo é especial.

 

O Atlético é favorito para conquistar todos os títulos da temporada? Qual é a sua expectativa para 2014?

No Brasil existem muitas grandes e boas equipes. O Atlético é uma delas e é favorito. Mas o principal e o que mais queremos é o bicampeonato da Libertadores, e temos totais condições de conquistar. Conseguir duas Libertadores seguidas é algo muito difícil e todas as equipes que enfrentarmos vão querer nos vencer, afinal, somos os atuais campeões. Para sermos campeões esse ano, precisaremos jogar mais do que no ano passado.

 

Com o Paulo Autuori você varia mais seu posicionamento do que no ano passado com o Cuca, trocando muito de lado com o Tardelli. O que o Autuori tem feito de diferente e o que ele tem cobrado de você?

O Tardelli se movimenta muito e participa demais do jogo. Agora, ele tem mais liberdade de movimentação e, quando ele muda de posição, eu tenho que mudar também para não ficar um lado vazio e o outro com os dois juntos. Ele quer a equipe muito ofensiva, mas também com muita atenção com a marcação sem a bola, começando desde o ataque, com a gente lá na frente marcando muito forte.

 

E como está sendo o trabalho com o Paulo Autuori?

Eu nunca tinha trabalhado com o Autuori, mas sempre gostei do trabalho dele em outras equipes. Ele é muito inteligente. Estou vendo isso agora e quero aproveitar a ajuda que ele pode me dar com a inteligência e experiência dele. Quero colocar em prática tudo que ele tem pedido. E a equipe já está começando a aprender o que ele tem pedido.

 

Falando sobre a vida fora de campo, como tem sido viver em Belo Horizonte e o que você gosta de fazer fora de campo?

A vida tem sido ótima. Belo Horizonte é uma cidade maravilhosa e gosto de viver aqui. Fora de campo eu gosto muito de esporte, de jogar tênis. Com o calendário brasileiro é complicado treinar e brincar, não tenho tido tempo. O calendário brasileiro é muito apertado e esse ano ainda mais pela Copa do Mundo.

 

Em relação a essa questão do calendário do futebol brasileiro e falando também do Bom Senso, o que você acha que pode mudar?

A mudança e melhoria do calendário não é boa só para os jogadores, é bom também para a imprensa e os telespectadores, que vão ver jogos melhores. Com a gente jogando de três em três dias, algumas equipes que não tem um elenco muito recheado perdem jogadores importantes de um jogo para o outro. A gente não consegue passar muito tempo com a família, quase não fica em casa. Isso tudo atrapalha a qualidade do futebol brasileiro, que poderia ser melhor. É preciso ter um calendário melhor, com um tempo maior de descanso e sem jogos em datas Fifa, porque isso atrapalha não só os clubes, mas também a seleção. A CBF, os clubes e as pessoas que trabalham com o futebol precisam se unir para melhorar o calendário do futebol brasileiro.

 

O seu contrato com o Atlético termina em julho. As conversas com o Al Jazira, dos Emirados Árabes, já começaram. Em que pé estão essas conversas e você quer ficar em definitivo?

Estão tentando um acordo e quero permanecer aqui. Se não ocorrer um acordo, eu precisarei voltar aos Emirados Árabes no meio do ano, pois tenho contrato até 2015. Mas me sinto feliz no Atlético, fui muito bem recebido. Não quero ficar pouco tempo no Atlético, quero aproveitar cada minuto, jogo e treino aqui. Se não ocorrer um acordo, ficarei muito triste, pois quero permanecer aqui. É um clube que me fez ser ainda mais feliz do que já era. Vestir a camisa do Atlético é um prazer muito grande e visto a cada jogo com um sentimento maior. Eu ouvi as pessoas falarem que você chega como um jogador no Atlético e sai outro. Não botei muita fé, mas é assim mesmo. Você chega jogador e vira torcedor. Nunca vou esquecer o Atlético. Não quero nem pensar na possibilidade de deixar o Atlético. Não quero sofrer antecipadamente.

 

E como é estar no Atlético e ter o carinho da torcida?

A Massa é vital para a nossa equipe. O que a torcida faz no Independência é diferente de qualquer outra. Quando estamos muito cansados, não aguentando mais, o grito da torcida faz a gente tirar força de onde não tem. Isso que torna a gente especial no Independência. É muito difícil enfrentar a gente aqui. A torcida mexe com você e é diferente.

 

Qual o seu sonho?

Defender a seleção brasileira. É o grande sonho que todo jogador tem. Não que depois de alcançar, você vai parar ou relaxar. Quero jogar uma Copa do Mundo e atuar em um grande clube da Europa. É o topo para qualquer jogador.

 

Quem foi a pessoa mais importante para você fora de campo?

A minha família, minha mãe, em especial, me ajudaram muito. Meu avô me apoiou muito também, até sem poder. Outras duas pessoas são o Arnaldo Lira, um treinador com quem trabalhei no Fortaleza, e o João Tavares, que é o atual presidente do Central de Caruaru, clube que me revelou.

 

Qual foi o maior desafio e superação da sua carreira?

Nasci em São Paulo, mas fui criado em Pernambuco. Nasci num lugar onde seria mais fácil se profissionalizar pela quantidade de clubes, mas fui dar certo em outro estado, mais difícil. Foi muito complicado porque eu fui reprovado no Santa Cruz duas vezes. Quando consegui passar no teste na terceira vez, eu sofri uma lesão, que não gosto nem de lembrar, e fraturei a bacia. O médico me disse que por pouco não fiquei paralítico. Foi um período difícil, sofrido, mas lutei para me recuperar. Só que me dispensaram apesar de tudo isso. Fiz então, um teste no Náutico, mas também fui dispensado. Eu já estava pensando em desistir, mas surgiu uma chance no Central de Caruaru. Fiz o teste e deu tudo certo. Deus que mudou a minha vida e hoje estou vivendo esse bom momento no Atlético.

*Com supervisão de Leandro Cabido

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