José Teóphilo Quadros

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salomão salviano
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Quadros, que afirma não ser da família de Jânio, é conhecido e chamado pelo sobrenome desde a infância, porque não gosta do prenome, José, nunca gostou, sempre achou exótico demais. Teóphilo, como a carteira de identidade registra, “José Teóphilo Quadros”, ele também não acha bom. Quadros foi o primeiro investigado para a monumental e inconcebível “Enciclopédia das Personalidades”, que estou escrevendo e pretendo concluir ao cabo de uma vida. No espaço que tenho aqui para este esboço cabe apenas dizer que há tempos uma obsessão o acossa: a de não ser moído pela rotina. Quadros tem 35 anos, foi casado duas vezes, tem uma filha de sete, trabalha na avenida Dom Pedro Primeiro, quase chegando em Venda Nova, e mora no Alto dos Pinheiros, bem distantes um lugar do outro. Na loja de autopeças que o emprega, exerce o tipo de trabalho mais alienado que se possa imaginar, alguma coisa como só bater carimbos, só empacotar produtos ou só conferir o estoque. É a única exceção à regra íntima e profunda que Quadros pratica, e com a qual tenta compensar esse lugar comum do dia a dia. Quadros vai para o trabalho com sua moto muito velha, porque é viável do ponto de vista econômico, porque é mais rápido, porque o transporte público, que talvez fosse ainda mais viável do ponto de vista econômico, é deficitário, e porque ele precisa trabalhar. Seu sustento e a pensão que paga dependem disso. Quadros nunca vai pelo mesmo caminho, ainda que isso implique um eventual gasto a mais com combustível. Ele acha que vale a pena. “Nem sempre a menor distância é a melhor distância”, ele me diz. Quadros precisa renovar o olhar sempre para se manter vivo. Às vezes ele pega a via Expressa, noutras vai pelo Anel Rodoviário e não raro ruma meio a esmo pelas entranhas dos bairros, Dom Cabral, Coração Eucarístico, Minas Brasil, Padre Eustáquio, Calafate, Caiçara, tange o centro, serpenteia pelo Complexo da Lagoinha, pega a avenida Antônio Carlos e por aí vai. Depois da Pampulha, segue um bocado ainda. São várias as opções que Quadros tem para se perder, mas sempre leva consigo, gravados na mente, com clareza, as possibilidades, os atalhos, o mapa da cidade em que nasceu e que palmilha desde que pode, sozinho. Ele já morou em muitos bairros diferentes enquanto estava sob a tutela dos pais, que também tinham esse espírito meio nômade, contrário às paisagens e situações estagnadas. Emancipado, trocou de endereço outras tantas vezes. Com a primeira mulher viveu numa região da capital, com a segunda em outra e nos intervalos, antes, entre e depois dos dois casamentos, também circulou só por diferentes logradouros. A primeira mulher quis se separar de Quadros porque não aguentava a inconstância da casa. Sempre que chegava do trabalho, todos os dias, ele mudava as coisas de lugar nos armários e gavetas da cozinha. Também costumava cambiar os guarda-roupas e os cômodos. A esposa trabalhava até mais tarde, chegava depois dele, não entendia nada. O fato de Quadros ter ficado um período desempregado foi a gota d’água, porque aí, sem a baliza de um ofício, ele próprio já não era o mesmo a cada dia. A segunda mulher se separou pelo mesmo motivo. A aversão ao que não muda é imutável em Quadros. Texto originalmente publicado no dia 22.6.2012. O colunista está de férias.

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