Dina e seus 108 anos

iG Minas Gerais |

O sonho de quase todos é envelhecer. Mas até quando seguir? Qual a idade ideal? Qualidade de vida é o que deve ditar o tempo? Muitas vezes me fiz todas essas perguntas enquanto olhava para ela. Pensava em quando apareceu cada ruga do seu rosto ou quanto cada uma delas contava sua história. As mãos finas de benzedeira não revelavam o trabalho pesado de quem carregou carvão.

Nem ao menos trazem marcas da época em que pregava botões numa fábrica da capital. Ao contrário, a pele lisa deslizava delicadamente pelo meu rosto. Se fecho os olhos, volto à infância e consigo sentir a leveza do carinho de Dina.

Seu nome é Erondina. Mas sempre foi chamada pelo apelido. Acho que ela nunca imaginou que faria tantos aniversários. Ano após ano surgiam mais e mais velas no bolo. Foram tantas que a idade se perdeu em meio à confusão das lembranças. Pela documentação, são 105 anos. Mas há quem diga que já completou 108, pois o pai a registrou quando estava crescida. Acompanhou duas guerras e diversos fatos históricos que marcaram o mundo. Viu muita gente morrer e outras tantas nascerem.

Dina nunca foi mãe, mas cuidou e viu crescer os sobrinhos e sobrinhos-netos, inclusive eu. Alguns eram especiais, e a eles destinou amor materno. Gostava que a chamassem de “Mãe Dolores”.

Por muitas tardes, eu e ela procuramos o sabiá nos galhos das árvores. O pássaro estava sempre em suas histórias e canções. Também nunca se casou. Nem ela nem a maior parte das irmãs. Muito rígido, o pai nunca permitiu.

Na época, só os filhos homens podiam “constituir matrimônio”. Ao todo eram dez irmãos. Apenas Belinha se rebelou e casou-se. Teve duas filhas. Justamente as sobrinhas que mais acompanham e cuidam de Dina.

Romântica, adorava novelas e seus galãs. Teve muitos amores platônicos. Mas houve, sim, um namorado, Galdino. Sei pouco sobre ele, mas me lembro bem do nome. Passei a infância e a adolescência cuidada e acalentada por essa mulher. Mesmo crescida, gostava de ficar no seu colo a ouvir suas histórias. Ela adorava contá-las. Recordar o passado sempre foi uma alegria. A mãe veio das Filipinas ainda mocinha. Foi no Rio de Janeiro que conheceu o marido, com quem logo se casou. Anos depois a família se mudou para Conselheiro Lafaiete, onde Dina nasceu, assim como meu avó Ernani. A família era apaixonados pelas festas de São João. No terreiro simples, faziam as quadrilhas e reuniam a vizinhança. Alfredo, um dos irmãos, tocava violão. Nunca faltava fogueira nem canjica e outros doces. Foi naquela época que aprendeu a fazer canudos com doce de leite, os mais saborosos que já experimentei.

Até os 100 anos ou um pouco mais a lucidez foi sua grande parceira. Mesmo com artrite, artrose e outras “doenças do tipo”, sempre foi muito vaidosa. Cabelo chanel, unhas cortadas e pintadas.

Parecia uma boneca. Mas o tempo algumas vezes é complexo e pode confundir. Ele a fez se esquecer de uns, se lembrar de outros que partiram e até criar aqueles que nunca existiram.

Das últimas vezes que nos falamos, ela se lembrou de mim com orgulho. Perguntou do meu filho como em um suspiro de lembrança. Mas no minuto seguinte lamentou o fato de eu não conhecer o seu noivo. É isso mesmo: ela está noiva e sonha em se casar. Já faz um tempinho que “criou” o companheiro imaginário, quem a ajuda a seguir melhor. É médico e vai curar as dores no corpo. Às vezes, também vê os pais ou os irmãos que já partiram.

Nesta semana, fez mais um aniversário. Sinceramente, não sei se ela ainda quer viver alguns outros anos. Acho que está cansada. É certo apenas que é amada pelo que construiu e será sempre lembrada com carinho.

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