Uma contenda em Paris

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salomão salviano
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Vai a Paris? Tem muita comida boa para provar antes que se decida a conhecer a Maison de la Truffe, pertinho da Igreja de la Madeleine. A indicação partira de um amigo de bom gosto, viajado. Havia motivos para crer que se trataria de um programa elegante, saboroso e inesquecível. No fim, a sensação que prevaleceu foi de muitos euros pra pouca trufa e comida mal temperada. Pior de tudo foi a embromação de terrine de foie gras sendo servida – e devolvida, claro - no lugar de foie gras! Era o meu primeiro prato. Chamei o maître e expliquei que o cardápio falava em foie gras. Contei que tinha em Belo Horizonte, tempos atrás, um certo Le Bistrôt, onde o chef Thierry não poupava recursos numa camada espessa de foie do bom sobre o filé. Foie grelhado por fora, macio e quase cru por dentro. Hummmm, de comer rezando. O sujeitinho, de modo entojado, bem no figurino que compõe o preconceito habitual acerca dos maîtres franceses, me disse que do jeito que eu queria tratava-se de “foie gras poêlé”, ou seja, passado na frigideira. Aí trouxe o único prato do cardápio que, segundo ele, ostentava o ingrediente. Tagliatelli, bons por sinal, trufa na medida, e uma lasquinha de meio centímetro de altura e quatro centímetros de diâmetro. Uma chapinha. De foie gras de verdade, admito. Gostosinha. Na mesa ao lado, o casal se divertia silenciosamente com a contenda gastronômica e acabamos entabulando boa prosa. Explicaram que eram do Périgord, região onde se come foie gras do jeito que deve ser. Embora com a ressalva de que a porção é sempre menor que no Brasil ou na Argentina, quer se trate de foie, carne ou qualquer outra comida. O garçom trouxe meu segundo prato. Veau, que é vitelo, mais assada do que eu havia pedido (seignant, comm’il faut). Neca de trufa nas batatas da guarnição, embora o cardápio dissesse que eram trufadas. Teoricamente, tudo lá era pra ser trufado, segundo a carta, até a sobremesa! O primeiro prato da Gigi, “homard (lagosta)et crème de céleri(aipo), en raviolis e sauce homardine”, passou looooonge da água de cozinhar lagosta, que dirá da própria. O segundo foi um risoto trufado, sem trufas! Aí pedi a sobremesa. O garçom disse que eu tinha feito a melhor escolha. Lembrei da diferença sutil entre espérer (ter esperança) e attendre(esperar, no sentido de aguardar). Sapequei: Nous espérons. Ele riu, percebendo a gozação implícita e voltou com o mi cuit (um petit gâteau, pra simplificar) de chocolat et sorbet de almond (amêndoas) trufé. A sobremesa, sim, veio com notas de trufa. No próximo artigo, falarei de restaurantes que valem muito à pena em Paris!

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