Sonho realizado na cozinha

Hoje à frente de seus próprios negócios, chefs se sentem realizados por terem trocado suas profissões originais pela gastronomia e falam sobre o momento da virada na vida

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Carlos Bruno. Sete anos de advocacia e uma catarse na Itália fizeram o chef abandonar os processos jurídicos e assumir O Conde
leo fontes
Carlos Bruno. Sete anos de advocacia e uma catarse na Itália fizeram o chef abandonar os processos jurídicos e assumir O Conde

A promessa de uma mudança radical de vida é uma fantasia comum, quase um clichê a que nos agarramos no cotidiano – quem nunca pensou em largar tudo e abrir uma pousada na praia? Para essa troca de hábitos, a cozinha é um território sedutor. Tanto, que muita gente troca tudo para viver dela.

O Gastrô procurou histórias de cozinheiros que tinham outras profissões antes de se dedicar à gastronomia. Entre eles, a área campeã de egressos é o direito. No mercado de Belo Horizonte, atuam pelo menos cinco ex-advogados que hoje têm seus próprios restaurantes: Paulo Henrique Vasconcellos (Benvindo), André de Melo (Speciali), Carlos Chiari (Chácara Chiari), Remo Peluso (Província di Salerno) e Carlos Bruno (O Conde).

Bacharel na disciplina, André de Melo arrisca responder sobre a profusão de ex-colegas nas cozinhas profissionais da cidade. “Claro que não posso falar por todos, mas acho que a gastronomia é o extremo oposto da advocacia. As profissões não têm uma relação direta. O que eu vejo é que muitas pessoas têm uma desilusão grande no direito, é uma profissão maçante. Hoje, vejo que a gastronomia está na moda, então atrai aqueles que não estão tão satisfeitos”, opina ele, que divide a sociedade do buffet Bravo! com um ex-colega, Paulo Henrique Vasconcellos.

Talvez a fórmula chave para a virada seja a combinação entre a desilusão citada por André e o fascínio que a cozinha exerce. Foi isso, pelo menos, que empurrou Carlos Bruno dos processos para o comando da cozinha d’O Conde. Advogado por oito anos, ele abandonou a carreira para atuar entre as panelas. E não poderia estar mais feliz, segundo afirma.

Desde o começo da faculdade, ele alimentava o sonho de, aos 40 anos, se aposentar e abrir um restaurante. “Na minha fantasia, seria um lugar pequeno e aconchegante no sul da França ou da Itália”, diz, rindo da falta de modéstia. Mas bem mais cedo, aos 28, surgiu a oportunidade de entrar como investidor em um restaurante em Belo Horizonte mesmo. Ele topou e começou a se envolver no meio. Fez o curso de cozinheiro profissional e foi sendo cada vez mais seduzido pelo fogão.

A catarse aconteceu em Alba, na Itália, onde ele tomou a decisão de assumir a cozinha. Para isso, visitou vinícolas, restaurantes familiares, adquiriu experiência com chefs italianos. Voltou e encarou a aventura. “Essa é a minha realização pessoal”, afirma.

Por coincidência, a decisão de André de Melo também aconteceu na Europa. Como estudante de direito, ele queria se dedicar à área internacional e partiu para uma temporada de um ano na Espanha e na Itália para aprender línguas. Na marra, para sobreviver, aprendeu também a cozinhar e tomou tanto gosto que mudou de profissão.

Na volta para o Brasil, terminou o curso, enquanto fazia estágios em cozinhas profissionais. “Pensei que valia a pena me formar. Se o sonho não desse certo, pelo menos eu tinha uma garantia. Confesso que ainda estava perdido, sem saber o que fazer da vida”, relembra.

De diploma de direito na mão, rodou o mundo para aprender o ofício pelo qual se apaixonou. No Brasil, trabalhou em São Paulo e Salvador e depois partiu para cozinhas internacionais. Holanda, Grécia, Estados Unidos e mais uma temporada de seis anos em Barcelona talharam seu caráter de cozinheiro. “Simplesmente não me vejo fazendo outra coisa. Eu me sinto motivado a cada dia. No meu tempo livre, por exemplo, leio livro de receita, pesquiso técnicas, procuro saber cada vez mais. É um trabalho em que prazer e intensidade se confundem”, diz.

Também bacharel na área, Remo Peluso conta que se formou mais para agradar o pai do que para atender a um desejo próprio. Imigrante italiano, o patriarca fez questão de formar os nove filhos – embora quatro deles viessem, depois, a escolher o caminho da gastronomia.

Embora confesse não ter sido um estudante tão dedicado, Remo acredita que a formação acadêmica ajude no seu dia a dia, não só como administrador do restaurante, mas também como chef. “Conhecimento nunca é demais e, nesse aspecto, o curso de direito é maravilhoso. A culinária é uma arte que agrega muitas coisas. É preciso conhecer história, por exemplo, conhecer outras culturas, ter um repertório maior” afirma.

Para quem quer trocar de ares, como ele e tantos outros fizeram, o chef só tem um conselho: “procure saber onde está se metendo. Uma cozinha profissional não é brincadeira, o trabalho, apesar de prazeroso, é muito duro”, orienta.

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