Crianças com necessidades especiais podem ficar sem tratamento

Centro de Preparação Equestre da Lagoa (Cepel), na região da Pampulha, está prestes a cancelar o atendimento às 20 crianças portadoras de necessidades especiais que ganharam o direito judicial de fazer o tratamento de Equoterapia e Therasuit.

iG Minas Gerais | José Vítor Camilo |

Sem receber desde julho da Secretaria de Estado de Saúde (SES), o Centro de Preparação Equestre da Lagoa (Cepel), na região da Pampulha, está prestes a cancelar o atendimento às 20 crianças portadoras de necessidades especiais que ganharam o direito judicial de fazer o tratamento de Equoterapia e Therasuit. Com R$ 170 mil a receber e várias dívidas, em 2014 a clínica foi impossibilitada de emitir as notas fiscais, que devem ser encaminhadas à SES, por não ter verba para pagar os impostos.

A dona da clínica, Lilian de Albuquerque Moura, explica que essa não é a primeira vez que tem problemas. “No ano passado ficamos sem receber por muito tempo e, exatamente um dia após O Tempo fazer uma matéria, eles nos pagaram as notas até o mês de junho. Mas desde então não recebemos mais nada. Tenho que pagar funcionários, já até vendi um carro”, denunciou.

Conforme explica a fisioterapeuta, ela faz os atendimentos desde que saiu a decisão na justiça obrigando o Estado a conceder o tratamento às crianças, sendo que entre elas está o cruzeirense Pedro Arthur (símbolo da luta contra a meningite) e o atleticano Felipe (que o pai criou bota especial para poder jogar futebol). “Cada vez mais crianças conseguem a decisão. Destas 20, somente cinco já possuem um contrato. Outras 45 crianças já conseguiram a decisão e ainda nem começaram o tratamento por que não recebemos”, protesta Lilian.

Segundo a mulher, sempre que ela procura a secretaria ela é informada de que o processo para seu pagamento está em um setor diferente. “Eles ficam empurrando, cada vez está em um lugar, mas nunca resolve. Até hoje eu fui levando, mas infelizmente nesta sexta-feira eu não poderei mais atender sem os pagamentos, pois como não tenho verba para pagar os impostos não posso mais emitir as notas para cobrar pelo tratamento. Infelizmente o serviço terá que ser interrompido até eu receber”, lamentou.

O tratamento

No Cepel, as crianças passam pelo tratamento de Equoterapia (com cavalos) e pelo Therasuit (Tratamento Intensivo Neurológico de Fisioterapia). Conforme a dona da clínica, o segundo tratamento é feito ao longo de um mês diariamente. Após isso, as crianças ficam três meses fazendo a equoterapia três vezes por semana. “É gratificante ver o quanto ajuda na superação deles, aumenta o equilíbrio, dá força e exercita crianças que muitas vezes não conseguem se movimentar”, lembrou.

Para a proprietária, o mais doloroso é justamente ver que as crianças ficarão sem os tratamentos que ajuda a superarem suas dificuldades. “O Pedro Arthur está fazendo todo um trabalho de condicionamento, já consegue andar de bicicleta. Ao mesmo tempo, tem um garoto que chegou aqui em uma cadeira de rodas e agora já vai para a aula de andador. O complicado é saber que eles serão os mais prejudicados”, afirmou Lilian.

Para o pai de Pedro Arthur, Rodrigo Diniz, questiona como o Estado consegue deixar essas crianças sem assistência mesmo com a liminar da justiça que autorizou o tratamento. “Nós não estamos pedindo favor, estamos exigindo o cumprimento de uma obrigação. Só quem luta 24h por dia para manter a vida da criança sabe o quanto as evoluções que ele alcança são importantes. Quando recebi a ligação de que amanhã (sexta-feira) poderia ser o último dia, o Pedro chorou”, disse o pai.

Sem escola

Além de correr o risco de perder o seu tratamento, o garoto Pedro Arthur, de 10 anos, está desde o início do ano sem escola. “Ele estudava em uma escola particular, mas houve um reajuste e ficou um pouco apertado, por conta dos tratamentos dele. Já procurei em escolas municipais, de BH e Contagem, e também estaduais. Mas nenhuma tem vaga”, denuncia o pai.

Com o pedido de transferência em mãos desde janeiro, Rodrigo foi na manhã desta quinta-feira (13) em mais uma unidade de ensino, a Escola Estadual Madre Carmelita. “Fui informado por um funcionário que não tem vaga. Aí aproveitei a oportunidade para contar com a ajuda de O Tempo”, disse Rodrigo.

As Secretárias de Estado de Saúde e de Educação foram procuradas pela reportagem de O Tempo e prometeram responder a demanda. A Secretaria Municipal de Educação também prometeu responder à reportagem. 

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