‘A felicidade é a emoção mais difícil de realmente se sentir’

Pesquisadora norte-americana da Universidade de Houston

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Brené Brown - Autora do best-seller “The Gifts of Imperfection”
Felix Sanchez / Divulgacao 11.0
Brené Brown - Autora do best-seller “The Gifts of Imperfection”

Pesquisadora do curso de serviços sociais, Brené Brown se dedica, há 12 anos, a estudar a vulnerabilidade, a pertença, a coragem e a vergonha. Autora de best-sellers que chegaram ao topo da lista, suas palestras no site TED alcançaram mais de 12 milhões de visualizações.

Qual é o seu conceito de vulnerabilidade? Defino como exposição, incerteza e risco emocional. Sentir-se vulnerável está no centro de emoções difíceis como medo, rancor e decepção, mas também é o berço do amor, do sentimento de pertença, da felicidade, da empatia, da inovação e da criatividade. Quando fechamos nossas portas para a vulnerabilidade, nos distanciamos das experiências que trazem propósito e significado para nossas vidas.

 

Como a vulnerabilidade se relaciona com a felicidade? As pesquisas mostraram que alegria e felicidade são experiências diferentes. Também aprendi que nem alegria nem felicidade são constantes: ninguém se sente alegre ou feliz o tempo todo. Mas nossas reais experiências de felicidade – aqueles sentimentos intensos de profunda conexão espiritual e prazer – nos capturam de uma forma muito vulnerável. Tendo passado vários anos estudando o que significa se sentir feliz, eu diria que felicidade é provavelmente a emoção mais difícil de realmente se sentir. Quando perdemos a habilidade ou a força de vontade de ser vulneráveis, a felicidade se torna algo do qual nos aproximamos muito na defensiva. Em uma cultura de nunca se sentir seguro, a felicidade pode parecer uma armadilha, pois o desastre pode estar logo ali na esquina. Mas toda vez que nos permitimos nos voltar para a felicidade, construímos resiliência e cultivamos esperança. A felicidade se torna parte de quem somos e, quando coisas ruins acontecem, estamos mais fortes.

 

Como a vulnerabilidade é um ato de coragem? Vulnerabilidade não é fraqueza. Nossa força de vontade de abraçar e nos envolver com nossa vulnerabilidade determina a profundidade da coragem e a clareza de nosso propósito. Sim, estamos emocionalmente expostos quando estamos vulneráveis e, sim, estar vulnerável significa entrar na câmara de tortura a que chamamos de incerteza e requer correr riscos emocionais. Mas não há nenhuma equação em que correr riscos, enfrentar a incerteza e protagonizar a própria vida seja igual a fraqueza. Se queremos ser corajosos, temos que ser vulneráveis.

 

Por que, em sua opinião, nós lutamos tanto contra vulnerabilidade e incerteza de uma forma geral? Incerteza, riscos e exposição emocional nos tornam suscetíveis – como se estivéssemos abertos para ser julgados ou ridicularizados. Para evitar nos sentir suscetíveis, colocamos uma armadura. Tentamos controlar as coisas e nos fechamos das pessoas. O problema é que, ao mesmo tempo em que a vulnerabilidade é desconfortável, ela é necessária. É o berço de quase todas as experiências humanas significativas, de amor e pertença a felicidade, criatividade e confiança. De uma perspectiva organizacional, vulnerabilidade também é a base necessária para a inovação, a liderança e responsabilidade.

 

A senhora crê que aceitar que somos vulneráveis se relaciona a não idealizar ou ter expectativas sobre pessoas ou situações? Acho que é parte, mas mais importante que isso é fazer um teste de realidade nas expectativas que colocamos sobre nós mesmos e relacionar nossas vulnerabilidades às experiências de vergonha, julgamento e culpa. Quando temos mais amor e compaixão conosco e começamos a praticar a resiliência da culpa, conseguimos abraçar nossas imperfeições. Trata-se de fazer uma longa jornada de “o que as pessoas vão pensar” para “eu sou suficiente”. Nós podemos receber as nossas inadequações como marcas de sermos humanos e podemos escolher nos esforçar por ter coragem, compaixão e conexões em nossas vidas, e reconhecer que nós somos dignos de amor, pertencimento e felicidade.

O que ganhamos aceitando nossa condição? Nossa força de vontade de nos apoderar e nos envolver com nossa vulnerabilidade determina a profundidade da nossa coragem e a clareza do nosso propósito. Por medo de pisar na arena – de protagonizar nossa própria vida –, sacrificamos relações e oportunidades que podem não ser recuperáveis. Nós desperdiçamos nosso tempo precioso e damos as costas para nossos presentes, aquelas contribuições únicas que só nós podemos fazer. Se quisermos experimentar relações mais significativas, mais inovação e criatividade, e mais felicidade em nossas vidas, temos que encontrar uma forma de nos envolver com a nossa vulnerabilidade. Temos que estar dispostos a tentar coisas novas, arriscar o fracasso, dizer o que pensamos.

Qual o seu conceito de vergonha? Vergonha é o sentimento ou a experiência extremamente dolorosa de acreditar que somos falhos e, portanto, indignos de amor e pertencimento. É o medo de que alguma coisa que fizemos ou não conseguimos fazer – ou um ideal a que não correspondemos, ou um objetivo que não atingimos – nos torna indignos de conexões (com as outras pessoas). “Eu não sou bom o suficiente para o amor, para pertencer ou para me conectar. Eu não sou amável, eu não pertenço”.

 

Como vergonha, vulnerabilidade e plenitude se relacionam? Plenitude é um termo que uso para descrever as pessoas que, nas pesquisas realizadas, pareceram mais resignadas à vergonha, que acreditam em seu valor. Em meu livro “The Gifts of Imperfection”, eu introduzo os dez mandamentos para a plenitude, mas em seu centro estão a vulnerabilidade e o valor: enfrentar a incerteza, a exposição, os riscos emocionais e saber que eu sou suficiente.

A senhora afirma que a vergonha está relacionada a uma série de problemas, como transtornos alimentares, violência, vícios etc. Como essas coisas se relacionam? A vergonha está altamente ligada a violência, agressão, depressão, a transtornos alimentares e a bullying. Os pesquisadores não encontram a vergonha associada a nenhum resultado positivo – não há dados para sustentar a ideia de que a vergonha seja um norteador útil para um bom comportamento. É da natureza humana querer se sentir digno de amor e pertencimento. Quando estamos sofrendo, seja quando estamos cheios de vergonha ou quando temos o medo da vergonha, somos mais propensos a nos engajar em comportamentos autodestrutivos. Tendo passado anos trabalhando de perto com pesquisadores e clínicos de vícios, eu já havia inferido que o primeiro fator influenciador de torpor seria nossa luta contra o sentimento de valor e a vergonha: nós anestesiamos a dor que surge de nos sentir inadequados e "menos". Mas essa era só uma peça do quebra-cabeça. Ansiedade e desconexão, além da vergonha, também surgiram como fatores que levam ao entorpecimento. A necessidade mais poderosa de se anestesiar parece vir de uma combinação de todos os três – vergonha, ansiedade e desconexão.

Como lutamos contra a vergonha? Para combater a vergonha, precisamos de resignação de vergonha. Homens e mulheres com altos níveis de resignação de vergonha têm quatro coisas em comum: 1) reconhecem a vergonha e compreendem seus gatilhos; 2) praticam autoconsciência crítica; 3) tentam e 4) falam sobre a vergonha. A vergonha desenvolve seu poder do fato de não ser fácil de se falar sobre. Se cultivamos consciência suficiente sobre a vergonha para nomeá-la e falar dela, basicamente, cortamos o mal pela raiz. A melhor coisa a se fazer em meio a uma crise de vergonha vai totalmente contra os instintos: praticar a coragem e tentar. A forma de lutar contra a vergonha e honrar a quem somos é ser o protagonista de sua própria história e a compartilhar com alguém que conquistou o direito de ouvi-la – alguém que nos ame não apesar das nossas vulnerabilidades, mas por causa delas.

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