Entre os rifles e as espadas

Premiada e aclamada pela crítica, produção paulistana chega a Belo Horizonte para contar o duelo entre dois mitos

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Circulação. Peça “Lampião e Lancelote” passará por sete cidades em turnê e ainda fará temporadas em São Paulo e Rio de Janeiro
João Caldas
Circulação. Peça “Lampião e Lancelote” passará por sete cidades em turnê e ainda fará temporadas em São Paulo e Rio de Janeiro

O que o cangaço e o período medieval têm em comum? Aparentemente nada. No entanto, dois universos, a princípio distantes, se aproximam no livro “Lampião & Lancelote”, do artista plástico Fernando Vilela, que inspira o espetáculo de mesmo nome, montagem paulista que estreia amanhã no Teatro Bradesco.

“A ideia da Debora (Dubois, diretora do espetáculo) era justamente trazer essa narrativa e todo o universo visual criado pelo Vilela para o espetáculo”, garante Vanessa Prieto, atriz da peça, que junto com Edinho Rodrigues e Debora, é uma das idealizadoras do espetáculo.

Na história, Lancelote, principal cavaleiro da Távola do Rei Arthur, desafia Lampião, ícone da resistência armada no Nordeste brasileiro. Mas não se trata de um desafio bélico, e sim um desafio cultural. Por meio do cordel e da novela de cavalaria, a disputa é de quem faz o melhor repente. Cada qual com seu universo de referências. O livro é incrementado com os traços estilísticos usados pelo autor que se vale das métricas poéticas próprias de cada gênero ao escrever sua obra. “Lampião & Lancelote” é um dos livros mais premiados do Brasil. Recebeu dois prêmios Jabuti, quatro prêmios FNLIJ e menção Honrosa na feira de Bolonha.

Além de sua riqueza literária, a obra traz forte identidade visual. “O Fernando é artista plástico e ilustrador. O livro tem grande qualidade estética. Ele demarca muito bem os dois universos: tudo que se refere ao Lancelote é prata e do Lampião é cobre. A direção trouxe essa proposta estética para o palco”, garante Prieto.

A participação de Vilela na montagem de sua obra não se restringiu apenas à inspiração. “Ele acompanhou os nosso ensaios e fez uma orientação, como se fosse uma curadoria artística, e nos mostrou como criava e as propostas do seu trabalho. Em outros momentos, ele nos deu referências sonoras que o inspirou. Ele nos revelou que quando desenhava a cena da batalha, que tem uma imagem muito forte dos rifles se fundindo às espadas, ele produzia uma batida forte com o carimbo que remetia ao confronto dos dois”.

Outra inspiração para a concepção do espetáculo foi, segundo Prieto, o olhar cinematográfico presente nas ilustrações de Vilela. “É possível perceber que ele pensa nos enquadramentos, nos planos, como se estivesse com um câmera. No espetáculo, cada novo personagem é trazido por um carrinho para dar a ideia do travelling (movimento característico de filmagem, no qual a câmera corre em cima de um trilho)”, explica a atriz.

Naquilo que considera ser uma “dessas coincidências maravilhosas da vida”, a artista relembra como conheceu o trabalho de Vilela e o seu encantamento. “Eu estava prestes a publicar um livro (Vanessa também é autora) e procurava referências visuais em outras publicações. Meu editor me apresentou esse livro e, como ele era conhecido do Vilela, fez a ponte entre nós dois”.

Vanessa então convidou os parceiros Debora e Edinho e os convenceu que aquele deveria ser o próximo projeto da trinca. “A Debora brinca que foi ela que me convidou para fazer o projeto, tamanha a satisfação dela. Ela foi responsável por toda a curadoria artística, desde a seleção do elenco, passando pelos técnicos, até chegar no Zeca Baleiro, responsável pela direção musical e trilha sonora original do espetáculo”, relata.

PREMIADO. O espetáculo parece seguir os passos bem-sucedidos do livro que o inspira. Com elenco recheado de nomes conhecidos, como Cássio Scapin e Daniel Infatini, venceu o prêmio Bibi Ferreira, na categoria Melhor Musical, superando o sucesso “Tim Maia”.

Agenda

O quê. “Lampião e Lancelote”

Quando. Amanhã e sábado às 21h; domingo às 19h

Onde. Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2.244, Lourdes).

Quanto. R$ 60 e R$ 30 (meia-entrada)

Vida Real

Virgulino Ferreira da Silva é Lampião. Junto ao seu bando, ele liderou uma insurgência por todo o Nordeste a partir de 1921, promovendo ações violentas até ser morto em uma emboscada em 1938. Popularmente, Lampião é tido como uma espécie de Robin Hood do Nordeste brasileiro.

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