Pretinha

iG Minas Gerais |

undefined

Acordo no meio da noite com os latidos insistentes de nossa cadela Pretinha. Junto com os latidos, um som aflito e desesperado de um acuado gambá. Pulo a janela e tento intervir, mas os dois, em sua batalha de vida ou morte, nem sequer percebem minha presença.

Ambos estão na grama, se atracando com dentes e garras. Depois, o silêncio. No meio da escuridão vejo a cena angustiante de um gambá que agoniza. Grito alto e consigo com dificuldade afastar nossa cadela. O gambá, ainda com vida, se afasta lentamente para o meio do jardim. Tento dormir. Mas a imagem não me sai da cabeça. Perdi o sono, apesar de o silêncio ter voltado a imperar. Não sei por quê, mas sinto um carinho especial por esses bichos de hábitos noturnos, de forte odor e dentes afiados, talvez porque, desde sempre, fizeram parte de minha infância.

Já criei gambazinhos em gaiola, cuja mãe foi morta por nossos cães. Também já levei um adulto ao veterinário. Atacado por nossa tropa de cachorros e ferido, acabou não sobrevivendo.

Hoje de manhã, percebo na Pretinha uma lassidão que não lhe é normal. No focinho e no pescoço, as marcas da batalha de ontem. Não é a primeira vez nem será a última que ela se atraca com animais, sejam gambás, gatos ou mesmo cachorros vizinhos que se aventuram em nosso jardim.

Acostumada a enfrentar desafios, Pretinha, essa coisa magrelinha de raça indefinida que um dia encontrei na rua, nada teme.

A rua lhe deu o espírito de sobrevivência; é a única que, se um dia sair de casa, não corre o risco de ser atropelada. Conhece o perigo de perto. Esperta, logo nos primeiros dias quando aqui chegou, descobriu como escalar e usufruir de uma mesa. Só fomos compreender o sumiço dos pães e o mistério das travessas vazias quando, numa noite, a vimos tranquilamente caminhando sobre a mesa, se esbaldando de arroz, batatas e outras iguarias. Desde então, após as refeições, somos obrigados a empurrar as cadeiras de uma maneira que não lhe permita subir.

Nas noites de inverno, ela simplesmente desaparece. Sabe que deve dormir na sua casinha da varanda, mas o frio desperta o seu velho instinto de sobrevivência. Esconde-se atrás de armários, debaixo de poltronas, até desistirmos de procurá-la. Na manhã seguinte, a encontramos – espichada no sofá, dormindo o sono dos anjos.

Seu programa predileto é invadir a casa vizinha. Ao entrar, faz questão de fazer xixi no tapete, demarcando seu território e, como se não bastasse, se atracar com a “dona” do pedaço, uma poodle pequena e dócil que se agiganta na hora do quiproquó. Para apartar a briga, nem água fria resolve. O caos é total e são necessárias muitas intervenções e gritarias para a separação de ambas. É um problema constante, e, sinceramente, não sei mais o que fazer. O portão encontra-se permanentemente fechado, e, justamente nos rápidos instantes em que é aberto, ela surge do nada, determinada a caçar confusão. E põe confusão nisso! Enfim, aprendeu como abrir o basculante da cozinha. Saltando como um cabrito, empurra a janela de vidro, tanto para entrar como para sair. Sua esperteza me espanta. Enquanto escrevo a observo, encolhida no tapete aos meus pés. O pelo escuro e brilhante realça os ossos salientes dessa cadelinha pequena, bonita e valente que hoje não me deixou dormir.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave