Fraternidade, memória e gesto

A companhia Dos à Deux traz à cidade “Irmãos de Sangue”, para uma temporada de quatro semanas no CCBB

iG Minas Gerais | Silvana Mascagna |

Sem palavras. Cena de “Irmãos de Sangue”, que conta a história de uma família e seus conflitos
Xavier Cantat divulgacao
Sem palavras. Cena de “Irmãos de Sangue”, que conta a história de uma família e seus conflitos

A companhia franco-brasileira Dos à Deux está de volta a Belo Horizonte, desta vez para falar de memória e fraternidade. E a boa notícia é que “Irmãos de Sangue”, o mais recente trabalho do grupo, fará uma temporada de quatro semanas no CCBB.

Com dramaturgia, direção, coreografia e cenário de André Curti, 45, e Artur Ribeiro, 42, a dupla que integra a Dos à Deux, “Irmãos de Sangue” conta a história de dois irmãos que se reencontram no enterro do pai e, a partir daí, mergulham num turbilhão de emoções e memórias até chegarem no que causou o afastamento de anos entre eles.

“Queríamos falar de como a memória da infância desses irmãos faz ressurgir pontos de vista diferentes para a mesma situação. O olhar que eles têm pelos pais, principalmente a mãe, que é essa figura exacerbada e que papel ela teve para conduzir esse barco. Porque a família sempre nos remete ao alto-mar, a algo à deriva, essa preocupação de quem vai se perder e essa fragilidade na construção de cada identidade”, afirma Artur, que, além de André, divide o palco com Cécile Givernet e Matías Chebel em “Irmãos de Sangue”.

A trama é, assim, construída de idas e vindas, de passado e presente, sem que uma só palavra precise ser expressada. O gesto é a linguagem escolhida pela Dos à Deux desde sempre. Desde que Artur encontrou André, em Paris, há 15 anos, e eles viram um no outro a possibilidade de criarem juntos uma forma peculiar de se expressarem.

“Virou nossa marca registrada”, diz Artur, sobre o teatro gestual, com a rica dramaturgia e profunda pesquisa da linguagem, desenvolvido por ele e pelo parceiro. “Mas somos dramaturgos. Pode não ter diálogos, mas tem intenções. Fazemos teatro”, afirma o ator.

Teatro popular, é bom que se diga, e talvez esse seja o grande diferencial da companhia em relação a outras que também se dedicam ao gesto. “Nunca esquecemos do outro, quando estamos criando um novo espetáculo. Sempre temos em vista como tocar o espectador está vendo, qual a melhor maneira de tocá-lo. As sugestões têm que ser entendidas, mas com pontos abertos para outras interpretações. Assim, trabalhamos com o lúdico, o poético, o onírico. Não queremos fazer teatro só para os entendidos. Os teóricos podem ver ali todas as simbologias e o percurso dramatúrgico, mas o público em geral deve sair feliz por poder acessar aquilo. Esse é o equilíbrio que tentamos o tempo inteiro”, define.

Atores e bailarinos de formação, André e Artur se tornaram, com a Dos à Deux, responsáveis por cada um das áreas que formam um espetáculo: iluminação, cenografia e coreografia. “Tem uma lógica em fazermos tudo. Na construção da dramaturgia, sabemos como a luz e cada objeto em cena pode nos ajudar a contar aquela história”, afirma Artur.

Essa complexidade no fazer levou o Centro Nacional de Teatro, de Paris, cidade sede da Dos à Deux, a propor um desafio para a dupla: que eles passassem para o papel uma de suas peças, com o objetivo de deixar, com poucas rubricas, uma porta aberta para que outros grupos pudessem montar e seguir o seu próprio percurso gestual. “Como faz Beckett em ‘Ato sem Palavras’”, diz Artur, que junto de André, está no processo de escolha de qual peça será transcrita.

A proposta do centro de teatro é um desafio e tanto para Artur e André, já que até a montagem de “Aux Pieds de la Lettre”, os espetáculos da companhia iam sendo costurados como um quebra-cabeça, era algo orgânico. “Em ‘Saudades em Terras d’Água’, começamos a escrever e virou uma epopeia. Muito teve que ser descartado, se não viraria um espetáculo de cinco horas. E não se pode fazer um espetáculo gestual de cinco horas, pela questão física e de ritmo. É como música, que tem suas pausas e seu ritmo. E é preciso pensar ainda na atenção do espectador”, disse.

Em “Irmãos de Sangue”, o processo de criação ainda contou com um outro elemento. Além do texto, em que era contada a história dos irmãos, os diretores/dramaturgos fizeram juntos com os dois atores convidados uma imersão de um mês em improvisações. “Todos nós tivemos a liberdade de mergulhar no que estava sendo proposto, mas improvisar em cima. Ensaiamos cinco horas por dia para retrabalhar tudo até que o nosso corpo registrasse aquele movimento, aquele gesto. Trabalhamos com rigor, precisão, para depois abrir tudo e surfar naquela onda. Foi uma grande experiência. E nos deu uma outra direção”, afirma Artur, que se diz um home realizado. “Só agora, depois dos 40 anos, posso dizer que adestrei o meu corpo”.

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