LSD volta a ser usado clinicamente após mais de 40 anos

Pesquisadores encaram os resultados como um começo

iG Minas Gerais | Benedict Carey |

Período. Foto clássica de Burk Uzzle durante o festival Woodstock, em 1969, década em que o LSD foi popularizado
arquivo Burk Uzzle
Período. Foto clássica de Burk Uzzle durante o festival Woodstock, em 1969, década em que o LSD foi popularizado

Nova York, EUA. O austríaco Peter, 50, ficou sabendo sobre o teste clínico com a droga por meio de um amigo na Suíça e decidiu que valia a pena se oferecer como voluntário, mesmo que isso significasse uma possibilidade real de um desastre mental. Ele não tinha muito tempo afinal, e a medicina tradicional nada fizera pra aliviar os sintomas da degeneração da coluna vertebral.

“Eu nunca havia tomado a droga antes, então o que eu sentia – bem, acho que a palavra correta para isso, é pavor”, disse Peter, um assistente social, que preferiu omitir o sobrenome.

O estudo, publicado no “Journal of Nervous and Mental Disease”, revelou resultados do primeiro teste clínico controlado com LSD em mais de 40 anos. Realizado no consultório de um psiquiatra suíço nos arredores de Berna, o estudo testou os efeitos da droga como um complemento para 12 pacientes de terapia em estado terminal, incluindo Peter.

A maioria dos pacientes tinha câncer terminal, e vários morreram dentro de um ano após o estudo, mas não antes de ter uma aventura mental que parece ter reduzido a tristeza existencial de seus últimos dias.

“A ansiedade deles foi reduzida e assim se manteve”, disse o doutor Peter Gasser, que realizou a terapia e acompanhou os pacientes um ano após a conclusão do experimento.

Antes de tomar LSD, os 12 pacientes se encontraram com Gasser em seu consultório para se conhecer. O estudo clínico exigia dois cursos de terapia auxiliada por drogas, separados entre si por algumas semanas.

Depois de quase dois meses de terapia semanal, os oito participantes que receberam doses integrais de LSD melhoram em aproximadamente 20% segundo a escala da medida padrão de ansiedade, e os quatro que ingeriram uma dose menor pioraram. Terminado o estudo, esses pacientes tiveram permissão para “mudar de lado” e experimentar a dose completa. Os achados duraram um ano em quem sobreviveu.

O estudo clínico foi pequeno demais para ser conclusivo, garantiu Gasser, cujos coautores foram Rick Doblin, diretor executivo da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, fundação que financiou muitos dos estudos, Dominique Holstein, do Hospital Universitário de Zurique, e Rudolf Brenneisen, da Universidade de Berna. Mas os pesquisadores encaram os resultados como um começo.

De modo geral, os participantes consideraram a terapia compensadora. “Ela prova que esse tipo de estudo clínico pode ser realizado com segurança, e que vale muito a pena ser feito”, disse Doblin.

Peter concorda. “Estou mais emotivo desde que o estudo terminou, e nem sempre alegre, mas é melhor sentir coisas fortes – é melhor do que estar apenas vivo”.

“Queremos tirar essas substâncias do crivo da contracultura e trazê-las de volta ao laboratório como um renascimento psicodélico”

Rick Doblin - Pesquisador

Flash

Uso. O LSD (dietilamida ácido lisérgico) produz grandes alterações no cérebro, atuando diretamente sobre o sistema nervoso e provocando alucinações, delírios e ilusões. É uma substância sintética, produzida em laboratório, que adquiriu popularidade na década de 60.

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