As escolhas feitas que predeterminam a vida

iG Minas Gerais |

Ainda estou pensando na recente refrega entre o MST, a polícia e o governo em Brasília. Os manifestantes têm razão: são pífios os resultados dos assentamentos, e não é de hoje. De hoje, a novidade é a aproximação entre Dilma e Kátia Abreu, ou seja, como a economia vai mal e a salvação vem dos grãos, nada melhor que passar a mão na cabeça dos grandes produtores. As terras encareceram enormemente e, para fazer reforma agrária, há que se pagar pelas desapropriações, e terra ruim ninguém quer. Fica caro fazer assentamento, ainda mais se você pensar que não basta dar a terra, precisa de financiamento e assistência técnica etc. Ninguém quer parar nos cafundós da vida e por lá ficar. Moral da história: vender grãos para os chineses é mais importante que resolver problema de vasta população de deserdados da terra. Foi opção também o modelo escolhido por JK, quando patrocinou a vinda das montadoras de automóveis e em torno delas tudo passou a acontecer. Foi abandonado o sistema de ferrovias – o pouco que havia por aqui –, e tome obra de construção de rodovias por todo lado. Em torno das montadoras, vieram as fornecedoras de autopeças, o transporte de mercadorias passou a ser, preferencialmente, por caminhões, e o de pessoas, por automóveis. Até a arquitetura mudou: hoje, desvaloriza-se muito um prédio que não tenha garagem para mais de um carro, ainda que a localização do imóvel seja perfeita. E quando um governo opta por estimular a compra do carro ou da moto pelos cidadãos, em plena era da “ideologia dos shopping centers”, na feliz expressão de Renato Janine Ribeiro, agora, então, só erguendo um terceiro andar de viadutos para acomodar tantos carros como os que entopem as cidades brasileiras. Aliás, num de seus rompantes de palanqueiro habitual, Lula chegou a jogar a culpa da imobilidade urbana nos prefeitos que não fazem um número maior de ruas. Veja se é possível tamanha sandice! Mas o trio JK, Lúcio Costa e Niemeyer ainda conseguiu, a meu ver, proeza maior: tirou o povo da jogada. A propósito de criar uma civilização que não ficasse engatinhando que nem caranguejo na beira do mar, transportou a capital da República de um lugar perto do povo e enfiou-a nesse fim de mundo de Planalto Central, reino do funcionalismo público, ilha da fantasia, péssima de clima e de caráter. Aliás, já dizia Nelson Rodrigues: “Em Brasília todos são inocentes e cúmplices”. Mais perfeito que isso, impossível. Aqui é, sem dúvida, o lugar onde ninguém sabe nada que acontece; onde o que se faz numa repartição pública não é conhecido da outra, nem mesmo agora, quando se confunde informação com transmissão ao vivo, pois a linguagem é hermética – que me desmintam os que acompanharam o julgamento do mensalão, ou os que acompanham as votações na Câmara ou no Senado. Aqui, ninguém está por perto. Tudo fica muito distante, muito árido, muito escondido, muito sujeito a interpretações. Parafraseando Clarice Lispector: Brasília é um “cemitério de sensações”. O que de pior poderia existir?

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