Um país em transformação

Após viagens pelo sertão mineiro, Pedro David leva livro “Rota Raiz” e exposição “Impressão em Processo” ao EXA

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Deslocamentos. Materiais e cores tipicamente urbanos se impõem à paisagem natural do Estado
fotos pedro david/divulgação
Deslocamentos. Materiais e cores tipicamente urbanos se impõem à paisagem natural do Estado

Seis anos se passaram desde que o fotógrafo mineiro Pedro David encerrou um longo e profícuo ciclo de viagens pelo Norte e Nordeste de Minas, realizadas entre 2002 e 2008. Àquela altura, conta o artista, lhe interessava vasculhar um imaginário cultivado em torno da mesma região durante toda a infância e adolescência, a partir de frequentes estímulos ligados às experiências de vida de seus pais. “Quando cheguei lá, entretanto, o que vi foi um sertão completamente em movimento. Havia um novo olhar do governo para o Brasil, e isso trazia consequências muito evidentes para aqueles lugares, deixava muito claro esse momento de transição”, observa.

Pois é essa uma das possíveis linhas de leitura do livro “Rota Raiz”, cujo lançamento belo-horizontino acontece hoje à noite no EXA. “De fato, encontrei naquele contexto uma realidade muito mais modernizada do que imaginava antes de chegar lá. Mas logo nas primeiras viagens entendi que a realidade era aquela, e a tomei, de certo modo, como tema do trabalho que começava ali”, explica o artista, que entregou ao parceiro e veterano fotógrafo Rui Cezar dos Santos a árdua tarefa de selecionar e organizar as imagens dentro da publicação.

Nas fotografias produzidas por Pedro, figuram paisagens naturais e construídas, além de variados personagens que de contrastantes modos remetem ao referido processo de modernização do sertão. “É interessante perceber, por exemplo, um certo contraste entre os ambientes interiores, mais antigos, e os exteriores, mais mudados. Outro detalhe que me chama atenção refere-se à cor da luz desses ambientes. Se antigamente, ela era mais quente, hoje em dia é comum que os mesmos lugares sejam iluminados por tons mais frios, o que fica muito evidente tanto nas casas quanto nos bares”, exemplifica o fotógrafo.

Atuando ante um cenário, pelo menos à primeira vista, já bastante explorado pela fotografia, Pedro garante ter se preocupado, a todo momento, em lançar um olhar contemporâneo sobre a realidade que ali se apresentava. “Se há uma parede de pau-a-pique, por exemplo, também há uma outra, logo ao lado, novinha e pintada com as cores da moda, como verde-limão, salmão e por aí vai. No lugar da roupa de couro antiga, o que encontrei foi a menina vestida de nylon rosa-choque”, compara.

Sobre a organização do livro, assinada por Rui Cezar dos Santos, Pedro observa a aproximação com um rico diário de viagem. “Entendo essa organização como um percurso, que trata da estrada, do encontro com as pessoas, de encontros que alcançam maior ou menor intimidade. Há também grupos de imagens que remetem a um interior mais antigo, mais tradicional, e outros que claramente se voltam ao diálogo entre dois tempos. Eu mesmo ainda estou lendo o livro, e convido as pessoas a fazerem o mesmo, sempre considerando que, apesar de haver algum tipo de abertura, existe também um pensamento profundo entre uma página e outra”.

Lançado em Belo Horizonte cerca de um ano após seu primeiro contato com o público, o livro “Rota Raiz” já confirmou, na visão de Pedro, ser capaz de tocar em questões universais, que em muito ultrapassam os domínios do sertão mineiro. “Ao longo do ano passado, tive oportunidade de mostrar esse livro em vários lugares e conversar muito sobre ele. Pude perceber, a partir disso, que as imagens reunidas na publicação são completamente assimiladas em contextos muito distantes do nosso. Mesmo no Uruguai, onde também estive, ficou claro esse olhar em direção a uma certa ocidentalização dos nossos interiores mais remotos e ao alcance dessa invasão da cultura de massa”, sintetiza.

Posteriormente ao rigoroso processo de produção do livro, conta Pedro, surgiu a ideia de dar um outro tratamento às mesmas imagens, dessa vez aproveitando o material descartado pela gráfica ao longo do processo de impressão. Foi aí que surgiu a exposição “Impressão em Processo”, que a partir de hoje, ocupa as paredes do EXA, na Savassi.

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