A festa acabou, a luz apagou. E agora?

Fim de temporada deixa os seriemaníacos praticamente órfãos

iG Minas Gerais | Ludmila Azevedo |

Força. Personagens cativaram os fãs de série com diálogos inteligentes escritos por Nic Pizzolatto
hbo/ divulgação
Força. Personagens cativaram os fãs de série com diálogos inteligentes escritos por Nic Pizzolatto

Outro dia um amigo postou no Facebook um spoiler sobre “Homeland”. Só não desfiz a relação virtual porque não estou em dia com a série. Mas isso foi fichinha diante do pavor de abrir a rede social e ler algo que eu não sabia sobre a primeira temporada de “True Detective”, a única com Matthew McConaughey (Rust Cohle) e Woody Harrelson (Martin Hart). Um delay, como se diz em televisão, nesses momentos é fatal.

Rust e Martin passaram a fazer parte da minha vida nos últimos tempos, de uma maneira tão estranha que fiquei me perguntando se, afinal, eu também não era meio niilista como o personagem de McConaughey. Com o desfecho, não li nada nas redes além de adjetivos como “sensacional”. Mais do que um alívio veio a percepção de que em “True Detective” o que interessa de fato é a narrativa, o processo.

Depois veio aquele momento de ler diversas teorias, concordar com milhares e só então perceber que... acabou. Passada a euforia, havia esse sentimento estranho que a jornalista Ana Maria Bahiana descreveu em seu blog como: “caramba, agora não dá pra ver mais nada hoje”.

Rust e Martin entraram numa galeria muito especial de personagens que muitos fãs de séries irão referenciar. Até hoje me pego parafraseando George Costanza, de “Seifeld”, Monica Geller, de “Friends”, ou mesmo Cristina Yang, que se despede de “Grey’s Anatomy”. É a tal identificação.

“No curso que eu ministro, costumo dizer que uma das maneiras mais fáceis de um diretor provocar a identificação é colocar o personagem numa situação de vulnerabilidade. Até então a identificação é indireta, mas quando vai crescendo e se tornando forte, experimentamos um sentimento que é real, inclusive com a perda. Não importa muito se aquilo é uma ficção”, explica Pablo Villaça, editor do site Cinema em Cena.

“True Detective”, de acordo com ele, embora seja centrada num mistério tem na relação dos protagonistas o ponto-chave. “A série tem três tempos e quando percebemos no presente que eles já não são mais amigos, ficamos chateados. É interessante, pois eles sequer existem”, diz. Na prática, Villaça confessa que se trata de uma sensação recorrente, a mesma com finais de “Breaking Bad”, “Friends”, Cheers” e alguns desfechos de “The Walking Dead”.

Para o editor literário Danilo Corci, “True Detective” conseguiu fazer uma versão moderna da proposta de Sherlock Holmes. “É uma série que cativou bastante porque vemos nossos valores refletidos ou não nos personagens. Por mais que se tente um distanciamento, era impossível não se identificar.

A professora Lis Mendes também experimentou o efeito “True Detective”. “Não era uma série, era um verdadeiro projeto cinematográfico. Esse modelo é envolvente porque a gente tem que mastigar e processar aquilo tudo. Estou achando péssimo não ter os dois na segunda temporada”, brinca.

Especialista no assunto, ela conta que aprendeu com outra série, “Game of Thrones”, a criar uma relação, digamos, de desapego com a ficção. “Uma vez um ator disse que ali qualquer um poderia morrer a qualquer momento. Isso dá uma sensação de fluidez”.

Mas atingir esse “nirvana” não é fácil. “No fundo, nos apegamos a esse mito do herói ou até o do anti-herói para preenchermos vazios, situações das quais não damos conta na vida real. Passamos a dividir dramas e alegrias com personagens. No caso do ‘True Detective’ havia uma linha tênue que dividia aquelas personalidades. Somos todos capazes de feitos ótimos e terríveis, isso é o mais importante, esse aspecto humano”.

Agora é vida que segue ou como diria um célebre personagem de seriado: “get a life”.

Não desista

Nic Pizzolato, o criador de “True Detective”, declarou ao site HitFix que ficou surpreso com tanta receptividade. Ele adiantou que a continuidade do projeto envolverá “mulheres duronas, homens maus e a história secreta do sistema de transportes dos Estados Unidos”. Muita teoria conspiratória para manter a aura de mistério. Por fim, Pizzolato entendeu o recado: “Preciso continuar sendo estranho – não adianta fazer a próxima de outra forma”.

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