"Apito comunista": a história do árbitro-radialista brasileiro de 54

Série especial conta o caso de Mário Vianna, que perdeu a calma na histórica Batalha de Berna entre Hungria e Brasil

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Vianna esbravejou:
Divulgação
Vianna esbravejou: "apito comunista" e "camarilha de ladrões"

Quando se fala da Copa do Mundo de 1954, todos se lembram de dois jogos especiais. A "Batalha de Berna", quando em um jogo muito violento, a fantástica Hungria de Puskás bateu o Brasil por 4 a 2; e o "Milagre de Berna", partida que marcou uma incrível vitória alemã sobre a mesma Hungria e ficou marcada na história, inclusive inspirando filmes. No entanto, a série "Manuscritos da Copa" não vai contar como foi aquele jogo extraordinário, quando o time comandado pelo lendário Fritz-Walter derrotou um dos melhores esquadrões de todos os tempos, comandado por Puskás e Kocsis. Vamos contar uma história que se relaciona com a "Batalha de Berna", mais especificamente, sobre um brasileiro que participou daquele duelo, mas sem estar dentro de campo.

A data era 27 de junho de 1954, e a expectativa pelo confronto entre o time dos craques Didi, Julinho, Djalma e Nilton Santos com a máquina húngara tomava conta das arquibancadas do Wankdorf Stadium e da voz do narrador esportivo Mário Vianna, o único radialista brasileiro presente naquele Mundial. Curiosamente, Vianna também era o único árbitro tupiniquim na Suíça.

Mesmo com o espetacular Puskás no banco de reservas, os húngaros abriram o placar com Hidegkuti logo aos quatro minutos de jogo, e ampliou com o craque Kocsis apenas três minutos depois. Após a surpresa e baque pelo início sensacional do adversário, o Brasil reagiu e diminuiu com Djalma Santos, aos 18 minutos, e começou a tentar equilibrar a partida. No entanto, não foi só no futebol. O jogo ficou marcado como um dos mais violentos da história do esporte e o "pau cantou" dentro das quatro linhas.

No segundo tempo, Lantos fez 3 a 1 para a Hungria, mas Julinho, num bonito gol, tratou de diminuir a desvantagem brasileira. E foi logo após o tento tupiniquim que a coisa desandou de vez. Após briga e confusão, Nilton Santos e Bozsik foram expulsos, e oito minutos depois, Humberto deixou o Brasil com apenas nove atletas em campo.

Isso foi o suficiente para Mário Vianna, que já estava exaltado durante toda a partida pela adrenalina do jogo, perder as estribeiras na cabine de transmissão. O árbitro-radialista não conteve a emoção e começou a criticar a maior autoridade dentro de campo, o inglês Arthur Ellis, e acusá-lo de roubo, bradando que o "apito do jogo era comunista" e "que a Fifa era uma camarilha de ladrões".

Após o quarto gol húngaro anotado por Kocsis e o fim do jogo, Vianna finalizou a transmissão e, reza a lenda, foi para dentro de campo jogar objetos no Ministro do Esporte da Hungria. É mais do que lógico que a entidade máxima do futebol mundial não deixou isso barato e baniu Vianna de seu quadro de árbitros. A punição, obviamente, não parou por aí, e o Brasil não teve árbitros na Copa de 1958, quando faturou seu primeiro Mundial.

*Com supervisão de Leandro Cabido

A série "Manuscritos da Copa" vai contar uma história diferente sobre os Mundiais toda semana até o início da Copa do Mundo.