As quatro pernas de Lula

iG Minas Gerais |

O que faz o guloso? Serve seu prato de olho na sobremesa. Ou almoça pensando naquilo que vai comer à noite. E o ganancioso, como age? Tem gente que é assim, que mira no degrau acima somente como plataforma para subir mais. Todas essas alegorias servem para introduzir a sanha do PT, que já admite pôr em curso o programa “Volta, Lula” em 2018. Há uma boa dose de arrogância nesse plano antes de se garantir a vitória neste ano. O PT parece mesmo movido unicamente por seu projeto de poder. E ele é factível? Ora, quatro anos é muito tempo. Mas, a julgar por 2014, a resposta está mais para sim do que para não. Quatro espécies de capital os petistas têm nas mãos. O mais mirrado hoje é a coalizão de apoio, um tanto rachada por conta da rebeldia do PMDB. Contudo, em caso extremo, não há nada que não resolvam 39 ministérios, ou 40, ou 41. E, nesse campo da coesão aliada e da partilha do poder, Lula é o capitão. Duas outras fontes de recurso político são as faces de uma mesma moeda: o marketing e a aprovação popular. Lula é o principal responsável por escalar o time de propaganda que buscará a reeleição de Dilma. Esses caras são tão craques que o marketing de governo e o eleitoral são indissociáveis. Na outra ponta, trabalha o fenômeno do resgate da cidadania pelo consumo, que é efeito não só do Bolsa Família, um marco no país em termos de política social. Por fim, o quarto e último tipo de capital e que mais chama atenção: o propriamente dito. Quem paga a conta da sanha irrefreável petista? Indiretamente, nós todos, ora, com nossos impostos. Mas paga também o contribuinte angolano, o guineense, o moçambicano, o haitiano... Quando foi eleito em 2002, Lula formou a parceria imbatível do “capital e trabalho” com José Alencar. Pois essa aliança segue firme. Não bastassem todas as grandes iniciativas associadas à Copa – bancada integralmente com dinheiro público, apesar das promessas iniciais –, o velho conhecido cartel das empreiteiras passou a contar com os serviços diplomáticos do ex-presidente desde que ele passou a faixa. Seu prestígio internacional o leva a países da América Latina e da África onde, com ajuda extraoficial do Itamaraty, triangula audiências com chefes de Estado para apresentar a expertise das grandes construtoras brasileiras. Os países escolhidos para a exportação dos serviços de engenharia rendem curiosidade. A escolha se deve à zona de influência do Brasil? É função da carência de infraestrutura desses lugares? A resposta deve estar um tanto além. Por que o interesse do seleto clube nacional do concreto em investir, com as cartas de recomendação de Lula, em nações pobres cujas instituições não são das mais sólidas? Apesar de tantas perguntas, esse projeto de quatro pernas tem uma força bestial inegável e de vocação longeva. Quem estiver disposto a derrubá-lo, para tal, vai precisar de algo mais do que apenas disposição.

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