‘Não vou navegar a vida inteira. Quero casa, família e uma horta’

Ana Paula Maciel Bióloga, 32 anos Ativista do Greenpeace

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Reprodução Twitter
undefined

Depois de chamar a atenção do mundo por ficar cem dias presa na Rússia em 2013, a bióloga e ativista do Greenpeace Ana Paula Maciel, 32, fez um ensaio sensual para a “Playboy”. Ela pretende reunir recursos para criar uma reserva ambiental e vai escrever um livro. Por que decidiu posar?

O interesse partiu do fotógrafo André Sanseverino, que me procurou quando eu ainda estava na Rússia. No início achei meio louco porque na Rússia eu não tinha noção da repercussão que a prisão tinha no Brasil. Quando cheguei aqui (28 de dezembro), eu era famosa e não sabia. Foi uma surpresa agradável e muito boa como reconhecimento do meu trabalho de ativista e defesa das causas ambientais. A negociação com a “Playboy” foi uma decisão completamente pessoal, e o Greenpeace me respeitou desde o início.

Como você tem encarado essa fama?

Eu encaro com naturalidade e uma oportunidade de atingir outros públicos, no sentido de que a Ana é bonita e vai mostrar a sua beleza. Esse ensaio será apenas mais uma ferramenta para continuar a minha campanha em prol do meio ambiente.

Tem algum objetivo específico?

É experimental e vai depender da repercussão do público. Para que aconteça um ensaio que tenha um cachê eu preciso que as pessoas que me apoiam e respeitam a minha decisão escrevam para a revista pedindo mais Ana Paula. E aí, com o dinheiro do cachê, eu tenho o projeto de uma reserva ambiental para receber, recuperar e reintroduzir animais vítimas do tráfico.

Onde seria este projeto?

No Brasil, com certeza. Ainda não sei dizer se no Sul ou na Bahia porque preciso pensar bem qual seria o Estado que mais sofre com tráfico e o mais carente. O dinheiro está longe de me deixar rica e será usado boa parte nesse projeto. Até porque não vou poder navegar a vida inteira no Greenpeace. Eu quero ter casa, família, cachorro e uma horta. Já são oito anos no mar, que vivo praticamente sem casa e passando mais tempo fora e viajando do que com a família ou namorado. Mas apenas todos juntos vamos poder fazer isso acontecer.

A escolha de uma jaula como cenário foi sua?

Foi uma ideia bem compartilhada comigo e a equipe do fotógrafo. Nós tínhamos várias outras ideias que, de repente, vão ficar para o ensaio nu, se realmente acontecer. Esse cenário é uma menção à jaula que eu ficava nas audiências na Rússia, mas agora estou do lado de fora. Agora a Ana está livre e ninguém mais pode segurar a Ana. Agora ela vai para o mundo.

Você espera por críticas?

Eu respeito as pessoas que têm opinião diferente da minha. Quando fui presa, as pessoas me criticaram. Quando cheguei em Porto Alegre e minha família me recebeu com um churrasco, alguns criticaram. Quando agradeci o governador Tarso Genro pelo apoio à minha família, fui criticada. Não é com a revista que espero ter consenso.

O que significou para a causa essa prisão dos ativistas?

A Rússia de certa forma aproximou a questão do Ártico e o meio ambiente das pessoas. Infelizmente nós tivemos que passar por isso. Por cem dias nossas vidas pararam completamente, cercada de insegurança tremenda, com sequelas psicológicas e traumas.

O que você tem feito da vida?

Estou organizando palestras inspiracionais e de educação ambiental para empresas, escolas, universidades e estou começando a escrever meu livro para contar todas as histórias incríveis que já aconteceram na minha vida de ativista. O que aconteceu na Rússia foi muito surreal para deixar em branco. Tem muitos detalhes que nunca contei pra ninguém, cartas para o meu namorado e a família, meu diário de prisão e muitas coisas bacanas de serem compartilhadas. Eu imagino que até o meio do ano que vem o livro estará pronto.

Certa vez sua mãe disse que você poderia ir pra qualquer lugar que ela ficaria aqui rezando. Ela já se acostumou com a sua rotina?

Acho que já porque já morei cinco anos fora do Brasil, já passei três anos sem nos vermos, então o pior já passou. Agora estou cada vez mais perto de casa. Essa repercussão da história da Rússia está me trazendo novas oportunidades. Vou poder ficar mais no Brasil e fazer o que amo, que é o contato com a natureza. Eu sou ativista todos os dias.

A preocupação do Brasil com o meio ambiente é diferente?

Hoje existem países que são reconhecidos mundialmente pelos esforços e o desenvolvimento de energias renováveis e casas autossuficientes. Isso no Brasil está meio atrasado. De todo o dinheiro a ser investido no sistema de energia até 2020, 72% será para o carvão e 2% nas eólicas e na solar. O país precisa muito diversificar a sua matriz energética. Somos um país riquíssimo de vento e sol. O regime de chuva no mundo inteiro mudou e nós já sentimos isso.

Relembre o caso:

- Ana Paula Maciel foi presa junto a outros 27 ativistas do Greenpeace e dois cinegrafistas em 19 de setembro de 2013 durante uma ação no Ártico contra a petrolífera russa Gazprom.

- Acusados de vandalismo e pirataria, o grupo ficou preso por três meses. A Justiça russa retirou as acusações, após negociação diplomática que se arrastou por 90 dias. Ela retornou ao Brasil no dia 28 de dezembro.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave