O saudoso arsenal poético de Morrissey

“Your Arsenal”, melhor disco solo do ex-vocalista dos Smiths, ganha bela reedição

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

Auge. O disco traz Morrissey solo no auge de sua produtividade, reunindo canções espetaculares
decca/ divulgação
Auge. O disco traz Morrissey solo no auge de sua produtividade, reunindo canções espetaculares

Reedições são chances para reavaliações, revisitas. São oportunidades para reencontros também, e de certa forma é essa a relação que o ouvinte pode estabelecer com “Your Arsenal” (Parlophone, importado, R$80 em média) de Morrissey. Lançado em 1992, pode-se de dizer que o álbum foi o prego final do caixão dos Smiths.

Por motivos diferentes, mas dois deles fundamentais: a) é um trabalho no qual Morrissey se afasta com alguma nitidez do que fizera anos antes com a banda; b) perdão pelo sacrilégio, mas é tão bom quanto quase tudo que ele tinha feito junto a Johnny Marr, Mike Joyce e Andy Rourke. E isso é muito, e Morrissey sabia disso.

Aliás, Morrissey sempre sabe das coisas. Apesar de canções históricas anteriores (“Suedehead”, “Everyday Is Like Sunday”, “Hairdresser On Fire”, “The Ordinary Boys”), faltava a ele um disco solo impecável. Papel que “Your Arsenal” preencheu com louvor.

Talvez o grande segredo do disco está nos versos da maravilhosa “Glamorous Glue”: “Olhamos para Los Angeles/ Pela linguagem que usamos/ Londres esta morta/ Eu estou muito apaixonado”. Depois de matar a rainha, ele matava a própria capital inglesa, fundo de inspiração para tantas lindas e melancólicas canções anteriores. O maior poeta do pop britânico contemporâneo, o homem que teceu as mais lindas linhas sobre seu país finalmente chegava ao acordo prometido ainda nos Smiths: Inglaterra, eu te dei tudo e você não me deu nada. Não é a toa que faixas como a poderosa “The National Front Disco”, um escárnio a então crescente onda nacionalista britânica, estão no disco.

“Your Arsenal” é, portanto, um potente aceno à America que tanto o fez bem: no início dos anos 1990, Morrissey era capaz de lotar o Madison Square Garden, em Nova York, sem fazer escarcéu. Sua paixão pela música americana, do rockabilly tradicional (“You’re Gonna Need Someone on Your Side”, “Certain People I Know”) ao glitter rock do New York Dolls e quetais estão claramente expressos no disco. E, prova maior, a nova edição do disco traz bônus um DVD com a inédita gravação ao vivo de histérico show feito pelo artista em 31 de outubro de 1991 no Shoreline Amphitheatre, em Mountain View, Califórnia (EUA).

Nos dois sucessos de rádio está o Morrissey gracioso, emocionante, pop até melar. Do cinismo de “We Hate When Our Friends Became Sucessful” até a linda “You’re the One for Me, Fatty” ele faz o que se espera dele: fala dos sentimentos sórdidos, escondidos e fala dos desajustados desse mundo, escondidos no quarto, oprimida por si e pelos outros. Morrissey em estado bruto.

Tamanha inspiração talvez sugira que ele queimou muito de sua pólvora criativa; tanto que demorou mais de uma década para o homem acertar um disco tão bom (“You’re The Quarry”, de 2004). Portanto, vale e muito a pena esse reencontro. Afinal, para os meninos e meninas trancados num quarto, Moz sempre foi um melhor amigo.

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