Uma mistura de risadas e seriedade

Instituto HaHaHa completa um ano colhendo mais que gargalhadas de crianças em hospitais de Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Ensino.Uma constante preocupação do grupo é a formação de palhaços por meio de cursos, como esse realizado em Belo Horizonte
carol reis / divulgação
Ensino.Uma constante preocupação do grupo é a formação de palhaços por meio de cursos, como esse realizado em Belo Horizonte

Em 1991 os Doutores da Alegria ganharam notoriedade no Brasil ao levar palhaços para animar e, assim, contribuir para o tratamento de crianças em hospitais. Em Belo Horizonte, o grupo ganhou uma sede em 2007. Sem patrocínio, a sucursal encerrou as atividades em 2012.

Mas o sonho dos profissionais que faziam parte da equipe mineira não morreu, pelo contrário. À época, alguns integrantes do grupo, entre artistas e funcionários administrativos, se reuniram e criaram o Instituto HaHaHa, que completou um ano de vida no primeiro dia deste ano com saldo positivo. “Belo Horizonte recebeu a primeira expansão dos Doutores da Alegria, e depois do fim resolvemos dar continuidade e também aumentar as áreas de atuação do projeto”, comenta o gestor e artista da ONG Instituto HaHaHa, Eliseu Custódio Vilasboas.

Assim, em janeiro de 2013 o grupo mudou de nome, decidiu seguir as premissas dos Doutores, mas traçou objetivos mais condizentes com a realidade do Estado. “Depois da transição, já conseguimos dois patrocinadores, começamos a expandir nossa atuação para o interior de Minas Gerais e passamos de seis para dez artistas”, pontua Villasboas, salientando que todos os atores são remunerados pelo trabalho feito.

O balanço positivo não para por aí. Em pouco mais de um ano, foi incluído o Hospital da Baleia na lista de locais onde o grupo atua. Até então, os palhaços do grupo se apresentavam no Hospital das Clínicas e na Santa Casa. Somado a isso, há um empenho para formação de novos palhaços. “Queremos socializar o saber e também a troca de conhecimento para contribuir com qualificação dos artistas. Neste ano vamos levar os cursos para Montes Claros, Lavras, Ipatinga e uma cidade da região metropolitana de Belo Horizonte que ainda não foi definida”, adianta.

Somente no Brasil, conta Vilasboas, há 500 grupos de palhaços cadastrados e Minas Gerais é o segundo Estado com maior número de palhaços de hospital. A quantidade, porém, pode ser um empecilho para a qualidade do serviço prestado. “É um trabalho delicado e cercado de sutilezas que merece atenção, caso contrário é possível causar danos em vez de ajudar”, diz o gestor, que exemplifica: “Há orientações para entrar na sala e curso sobre infecção hospitalar que deve ser feito antes de começar o trabalho”.

Esses fatores tornam o “palco” em que os palhaços de hospital se apresentam um desafio por si só. Pelo menos é assim que pensa a jovem Samara Montalvão, também integrante da trupe HaHaHa e antiga palhaça de rua. “Os encontros do palhaço com o público, tanto em vias públicas quanto no hospital, são importantes. Mas os predicados do hospital impõem muitos limites e regras que merecem atenção”, diz.

Samara veio de São Paulo exclusivamente para participar do grupo após passar nos testes no ano passado. Para ela, trabalhar com crianças realmente é delicado e requer uma capacitação além da cênica.

“A mesma potência que fortalece a cura também pode fortalecer a tristeza. As crianças já estão submetidas a um estado de dor e inferioridade que não deve ser catalisado. Por isso, utilizamos de uma linguagem leve, não no sentido de limitada, para que ela se sinta bem e compreenda as intervenções”, comenta a artista.

Feliz de ter se mudado para capital mineira, a qual descreve como “uma cidade romântica”, Samara vê no modelo de ensaio proposto pelo líder do grupo uma forma de conseguir beber de várias fontes para fazer um trabalho complexo que envolve improvisação e cuidados. “Acho que o Eliseu conseguiu propor um caminho interessante para nosso treinamento, em que fazemos desde meditação a acompanhamento psicológico, passando por simulação de jogos e aulas de canto”, comenta a atriz.

O múltiplo treinamento contribui para o novo formado adotado recentemente pela trupe: as duplas não serão mais fixas e os integrantes se apresentaram com todos. “O treinamento é muito importante, pois trabalhamos com as partes técnicas fundamentais para nos prepararmos para um espetáculo que nunca sabemos o que vai acontecer, mas também é um momento para refletir sobre o trabalho social como arte”, conclui Vilasboas.

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