Tio Sam conheceu nossa batucada

iG Minas Gerais |

Hélvio
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No repique destas duas grandes festas mundiais recentes, nosso Carnaval brasileiro e o tapete vermelho da indústria de cinema roliudiana, me lembro de, ainda nos dias próximos ao domingo retrasado, ouvir gente meio em dúvida com a notícia de que a Rede Globo não iria transmitir o Oscar e optara pelo desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, já que ambos aconteceram na mesma noite.

É óbvio que a Globo não fez essa escolha por nenhum ataque de brasilidade, e sim por pesar na balança as cifras de seus patrocinadores. Dessa forma, programou uma reprise da festa do cinema para segunda-feira à tarde e quem pôde e se interessou assistiu ao Oscar na TV fechada. Impossível prever qual seria exatamente a audiência se a maior emissora do país optasse pela premiação cinematográfica norte-americana, mas fato é que o Carnaval não deu o ibope esperado, ficando abaixo de anos anteriores.

Deixando de lado esses e outros aspectos comerciais da coisa e sem querer expressar aqui um anti-imperialismo retrógrado, o resultado do embate dá um gosto saboroso de lembrar Assis Valente (1911-1958) que compôs “Brasil Pandeiro”, com os versos: “O tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada/ Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/ Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará./Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, Iaiá”.

Consta que o compositor nascido na Bahia que se radicou depois no Rio de Janeiro, como protético, compôs esse samba em 1940 para Carmen Miranda, na ocasião em que a cantora voltava ao Rio de Janeiro após sua primeira viagem aos Estados Unidos. Ela não teria gostado da composição, o que deixou Assis Valente desolado.

Como registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Carmen Miranda já havia gravado sambas de Valente e depois tornou-se uma das principais intérpretes desse compositor. Uma dessas músicas, anterior a “Brasil Pandeiro”, foi “Good-bye, Boy”, que justamente criticava o excesso de americanismos no nosso idioma. Fato é que depois, possivelmente já entusiasmada pelo sucesso nos EUA, ela não deu bola para os versos do tio Sam. Embora a música tenha sido gravada na mesma época pelos Anjos do Inferno, só virou um grande sucesso na gravação do primeiro LP do grupo Novos Baianos, em 1972.

Já mais recentemente, nos anos 90, foi belamente reverenciada por Lenine em “Jack Soul Brasileiro”, que em um dos trechos, diz: “Eu só ponho bebop no meu samba/ Quando o tio Sam/ Pegar no tamborim/ Quando ele pegar/ No pandeiro e no zabumba/ Quando ele entender/ Que o samba não é rumba/ Aí eu vou misturar/ Miami com Copacabana/ Chiclete eu misturo com banana/ E o meu samba, e o meu samba/ Vai ficar assim”.

Avaliemos que o samba então venceu o Oscar, o Tio Sam conheceu a nossa batucada, mas em relação ao Carnaval a questão da identidade musical me parece estar sumindo pelo ralo. Quando a gente sai às ruas e observa o que as pessoas mais estão ouvindo hoje nas rádios comercias, nos carros, nas festas, enfim, não remete a nada que escrevi aqui ou mesmo ao que a própria Globo vem transmitindo das escolas de samba ao longo dos anos. Em duas cidades pequenas pelas quais estive de passagem neste Carnaval, palcos com equipamentos poderosos estavam armados e o som predominante a contagiar os presentes era o arrocha ou congêneres que nada têm de ritmos carnavalescos. A especular que isso pode estar ocorrendo na maior parte do interior do país, a grande massa não vai mesmo se interessar pelo Oscar ou por escolas de samba que (embora parte delas também se degrade com homenagens suspeitas em seus temas) mantêm a base musical característica de sua essência. Força também aos blocos que priorizam um caminho de autenticidade.

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