O continente rústico: viver e morrer em Minas - parte 1

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No grande pilão escavado num tronco, duas escravas socam o que pode ser nossa magra esperança de um futuro melhor
Intervenção sobre gravura de Jean-Baptiste Debret
No grande pilão escavado num tronco, duas escravas socam o que pode ser nossa magra esperança de um futuro melhor

Ajudei a editar em 2000, como diagramador e produtor gráfico, o excelente livro “O Continente Rústico – Abastecimento Alimentar nas Minas Setecentistas”, do historiador José Newton Coelho Menezes. Nas estantes, fica ao lado do clássico “Feijão, Angu e Couve”, do mestre Eduardo Frieiro. Volta e meia pegava o livro para dar uma sapeada aqui e ali, lendo trechos, examinando gráficos, revendo imagens, coisas que eu havia ajudado a construir, com prazer, mais de uma década atrás. Mas que são 14 anos comparados com dois séculos? E eis que, de repente, me dou conta de que lá dentro, naquelas páginas já um pouco sacrificadas pelo manuseio, está muito do que fomos, do que somos e – talvez – do que seremos, se as previsões catastróficas dos ambientalistas não se confirmarem. Confirmadas, será o caos, e teremos desertos onde temos fartura. FONTES E FONTES O principal mérito do trabalho de José Newton é buscar fontes primárias, ao contrário de tantos estudiosos de maior ou menor renome que, cercados de autores importantes, fazem da citação sua referência primordial. Por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda, em “Metais e Pedras Preciosas”: “... salienta que, ‘de início’, a lavoura é a atividade econômica que ‘desperta menos vocações’. No entanto, o ouro provoca indiretamente uma sedução por ‘negócios altamente rendosos (...) ainda mais do que o das minas de ouro’, que ocasionam o aumento da população. Ora, além do contrabando, do comércio de escravos e da prestação de serviços, o que poderia ser negócio altamente rendoso em uma sociedade nova, aglomerada em núcleos populosos e ávida pelo ganho fácil na mineração?” – questiona José Newton. E continua: “No mesmo texto, Holanda descreve que ‘Em meados do século [XVIII]o negócio dos metais e das gemas preciosas não ocuparia senão o terço, ou bem menos, da população’.” E os dois terços restantes, o que fariam? Esta é a questão básica. POPULAÇÃO E OCUPAÇÃO Segue a análise de José Newton do pensamento de Sérgio Buarque: “Continua evidenciando a composição social do que seria, então, a população: ‘O grosso dessa gente compõe-se de mercadores de tenda aberta, oficiais dos mais variados ofícios, boticários, prestamistas, estalajadeiros, taberneiros, advogados, médicos, cirurgiões barbeiros, burocratas, clérigos, mestres-escola, tropeiros, soldados da milícia (...). Sem falar nos escravos, cujo total, segundo os documentos da época, ascendiam a mais de cem mil’. O mestre Sérgio Buarque omite os produtores de alimentos.” E mais adiante: “Poucos historiadores perguntaram às fontes históricas três questões fundamentais sobre a agricultura de abastecimento interno: qual a função dessa agricultura na vida econômica (?); que lugar ocupava o agricultor na sociedade (?); quais as circunstâncias e de que modo produzia o camponês (?)”. MAIS CITAÇÃO “José Joaquim [DA ROCHA]é bastante enfático quando salienta a produção agropastoril da Comarca do Rio das Mortes. De acordo com sua descrição, aquela região ‘é a terra mais abundante de víveres que tem todas as Minas; porque dessa comarca se sustentam todas as mais das Minas, principalmente de gado, toucinho, queijo, milho, feijão e arroz; tem muita fruta de espinho [frutas cítricas], maçãs, ameixas e bananas; a caça e o peixe em toda essa comarca são com muita abundância e servem de divertimento àqueles inclinados a esses exercícios; os ares são sadios, o clima temperado, e por essa razão há poucas doenças e somente são acometidos os nacionais, principalmente camponeses, de umas grandes grossuras que lhes cresce no pescoço e lhes chamam papos, de sorte que alguns chegam a disforme grandeza e impedem a respiração a todos os que padecem de tal moléstia’.” POPULAÇÃO EM 1776 Na tabela dos “habitantes da capitania de Minas gerais, por comarca”, temos o censo da população na época, adaptada, informa José Newton, de Tarquínio J. B. de Oliveira e Kenneth Maxwell, e atribuído a José Joaquim da Rocha: Vila Rica: 78.618 habitantes, sendo 12.679 brancos; 16.791 pardos e 49.148 negros. Rio das Mortes: 82.781 habitantes, sendo 29.926 brancos; 15.794 pardos e 37.061 negros. Sabará: 99.576 habitantes, sendo 14.394 brancos; 34.236 pardos e 50.946 negros. Serro Frio: 58.794 habitantes, sendo 13.665 brancos; 15.289 pardos e 29.840 negros. O total geral mostra 319.769 habitantes na capitania, população já considerável e que era preciso alimentar e vestir. Veremos como e com quê mais tarde. FONTES PRIMÁRIAS Para seu livro, José Newton analisou, entre outras fontes, 45 processos de inventários de pessoas falecidas entre 1780 e 1810. Deles, o mais interessante é o documento de Dona Anna Perpétua Marcelina da Fonseca, que perdeu o marido em 1793. Com seis filhos menores de 15 anos para criar, possuía “quatorze moradas – treze das quais alugadas a terceiros –, uma chácara nos limites do arraial, uma fazenda e três áreas de terras minerais pelos arredores”. Inventariante do marido, dona Anna fez cuidadoso levantamento das “Despesas de mantimentos”, no período de julho de 1793 a outubro de 1796, ou seja, durante os 40 meses em que se desenrolou o processo do inventário. Outro documento importante é o de João de Azevedo Pereira, português, com loja de fazendas secas no Tejuco. Solteiro, vivia com cinco escravos e, além de uma relação de talheres, bastante comum nos inventários, deixou uma descrição do estoque de sua loja e até a lista dos compradores de “caderneta”, 112 pessoas às quais vendia fiado. Deste início um pouco confuso, devido à quantidade de dados disponíveis no livro, passarei ao varejo miúdo, começando pela relação de dona Anna Perpétua.

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