Namoro entre TV e literatura

Autor da série “True Detective”, que termina amanhã na HBO, defende qualidade da televisão em relação ao cinema

iG Minas Gerais |

Investigação. Escrita por Nic Pizzolato, obra traz Woody Harrelson em um de seus papéis principais
Divulgação
Investigação. Escrita por Nic Pizzolato, obra traz Woody Harrelson em um de seus papéis principais

Os autores literários estão cada vez mais apaixonados pela televisão. E vice-versa. O sucesso de “True Detective”, cujo primeiro ano acaba amanhã à meia-noite, na HBO, mostrou como esse namoro pode ficar ainda mais sério. “A TV está melhor que o cinema há pelo menos dez anos”, disse à reportagem Nic Pizzolatto, criador da série. O autor conseguiu algo inédito: escreveu sozinho os oito episódios da série e ganhou crédito de produtor sem ter um filme no currículo.

“Não tenho o menor interesse em me matar para escrever um roteiro e entregar para um produtor estragar tudo”, diz Pizzolatto. Ele tem dois livros publicados: “Between Here and the Yellow Sea” e “Galveston”, romance premiado pela Academia Francesa de Letras. Nenhum saiu no Brasil.

A aposta da HBO deu certo. O primeiro episódio de “True Detective”, com 2,3 milhões de espectadores, foi a melhor estreia do canal em três anos nos EUA e ganhou os críticos e fãs apaixonados por referências literárias.

Usando o detetive filósofo Rust Cohle (Matthew McConaughey), Pizzolatto cita Nietzsche (“Toda Verdade é Sinuosa”), joga pistas que desorientam o espectador e usa a mitologia de um livro de 1895, “O Símbolo Amarelo e Outros Contos”, de Robert W. Chambers (1865-1933).

As histórias fantásticas de Chambers devem ser lançadas neste mês no Brasil pela editora Arte & Letra. “Queria injetar uma sensibilidade de romance. Falam que a TV possui narrativa literária, mas não é bem assim. Livros têm final e a maioria das séries só começa a pensar no fim quando anunciam o cancelamento”, diz Pizzolatto.

A história sobre dois detetives que investigam a morte de uma garota em meio a elementos de rituais satânicos terá um ponto final nesta noite. O segundo ano da série trará outro caso, sem personagens da primeira temporada. Velho Oeste Jonathan Tropper, autor dos best-sellers “Como Falar Com um Viúvo” e “Sete Dias Sem Fim”, foi para a TV seguindo regras tradicionais em “Banshee”, série exibida pelo Maxprime.

Ele trabalha com uma equipe de escritores, sem começo, meio e fim predefinidos. “Na TV, o escritor controla tudo. Já no cinema, o diretor e o produtor nos querem ver longe”, diz o roteirista da série sobre um criminoso que assume a identidade de um policial morto.

“A TV agora é o Velho Oeste, território fértil que cria conteúdo o tempo todo. É a corrida do ouro dos autores”. Já Stephen King, que se aventurou na TV com a série “Kingdom Hospital”, assina agora o roteiro do primeiro episódio da nova temporada de “Under The Dome” (exibida pela TNT), baseada no seu livro “Sob a Redoma”. Ele se diz encantado com o momento atual da televisão.

“Ela desafia escritores a contar histórias dramáticas de modo romanceado, algo que não estava acostumada a fazer”, diz King. “Em ‘True Detective’, por exemplo, você não sabe se os detetives sairão vivos. É assim que tem de ser. A TV virou uma mídia literária”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave