1939, o ano que se eternizou nas telas

Considerada por muitos a melhor da história de Hollywood, a safra deste ano, que inclui “E o Vento Levou” e “O Mágico de Oz”, completa 75 anos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Profético. Renoir antecipou em uma sequência de caça em “A Regra do Jogo” o massacre que se abateria sobre a Europa durante a Segunda Guerra
NEF / divulgação
Profético. Renoir antecipou em uma sequência de caça em “A Regra do Jogo” o massacre que se abateria sobre a Europa durante a Segunda Guerra

Em 1938, George Cukor desistiu de dirigir a comédia “Ninotchka”, que vinha desenvolvendo com a MGM, para comandar outro filme do estúdio, um tal de “E o Vento Levou”. Seu estilo, porém, não agradou ao (mega) produtor do longa, David O. Selznick, e ele foi demitido no meio das filmagens. Enquanto aguardava por outro projeto, o cineasta acabou como substituto no set de “O Mágico de Oz”, cujo diretor original também havia sido despedido.

Sem assinar nenhum dos trabalhos, Cukor participou do que viriam a se tornar três dos maiores filmes da história do cinema. E que, ao lado de vários clássicos lançados em 1939 – “No Tempo das Diligências”, “A Mulher Faz o Homem”, “Vitória Amarga” e “Paraíso Infernal”, dentre outros – fariam do ano uma espécie de “Eldorado” de Hollywood, considerado por críticos até hoje como o melhor da história da indústria norte-americana. Um marco que completa 75 anos em 2014.

“Era o momento da maturidade do cinema clássico, tanto no que tange ao grande poderio dos estúdios – em que o cinema se tornara uma indústria extremamente lucrativa, em plena véspera de uma Guerra Mundial e logo após atravessar a Depressão – quanto ao aprimoramento narrativo e da linguagem cinematográfica”, afirma a professora Ana Lúcia Andrade, da Escola de Belas Artes da UFMG. A fala aponta dois dos principais motivos que podem explicar porque a filmografia de 1939 permanece tão icônica e forte no imaginário do público.

O primeiro é que, além de terem sido fenômenos de público, esses filmes se tornaram verdadeiras referências, paradigmas, do cinema de gênero realizado na época. Sem “E o Vento Levou” – que, com o ajuste inflacionário, é ainda a maior bilheteria de todos os tempos, com cerca de US$ 4,5 bilhões arrecadados –, não existiria “Titanic”. E em sua crítica no lançamento de “No Tempo das Diligências”, a “Variety” já dizia que o longa dirigido por John Ford “mantém um ritmo tenso e dramático, ao mesmo tempo em que injeta vários momentos cômicos, que delineiam seus personagens com sinceridade e humanidade”, dando a receita de sucesso de todo faroeste.

“Ninotchka”, por sua vez, é um dos melhores exemplos do star system da época. Uma sátira ao comunismo construída a partir da simples premissa “Garbo ri”, criada pelo estúdio para atiçar a curiosidade do público em torno da primeira comédia da “diva de gelo” Greta Garbo, conhecida por papéis dramáticos.

Já o drama “A Mulher Faz o Homem”, ao estrear em Belo Horizonte em 1940, foi exaltado pelo extinto jornal “Folha de Minas” por ser um exemplar de como o diretor Frank Capra sempre contava histórias velhas a seu modo. “Mas é o ‘seu modo’ que vale tudo. ‘A Mulher...’ é apenas a parábola de Cristo expulsando os vendilhões do templo. Só que o templo é o Senado em Washington. E Cristo bebe cocktails e namora moças bonitas, com aquela bruta e encantadora falta de jeito de James Stewart”, escreveu a publicação.

“É o típico filme para fazer as pessoas acreditarem na sociedade e na capacidade dos americanos de vencerem a depressão econômica. O cinema todo do Capra na década de 30 é isso”, afirma o crítico Mário Coutinho sobre a produção.

Esse papel político denota o segundo aspecto que alicerça o poder desses filmes. Tendo sido lançados em 1939, eles foram realizados no início daquele ano, ou em 1938, sendo as últimas grandes produções do mundo pré-Segunda Guerra e, portanto, os derradeiros representantes de um imaginário romântico (“Vento”), fantasioso (“Oz”), heroico (“Diligências”) e satírico (“Ninotchka”), típico do cinema clássico, que seria inevitavelmente abalado e alterado pelos horrores do conflito.

Coutinho traça um paralelo com o ano de 1922, considerado mágico para a literatura no mundo inteiro, com o Modernismo no Brasil e o lançamento do “Ulysses” de James Joyce, entre outros. “Não sei se compararia com 1939, porque vejo mais transformações na linguagem cinematográfica em 1941 com ‘Cidadão Kane’. Mas 39 é a data onde a guerra começa e o mundo vai virar de cabeça para baixo”, analisa.

Ana Lúcia Andrade também vê um período de transformação entre 1939 e 41 que vai alterar toda a perspectiva de mundo e de cinema. Para a professora, surgem novos subgêneros mais obscuros, como o noir, e as combinações narrativas dos gêneros clássicos começam a se flexibilizar e se adaptar. E ela concorda que “Kane” é o grande representante disso. “Todas as inovações técnicas e estratégias narrativas propostas por Welles influenciariam artisticamente os cineastas a partir dali, inclusive fora de Hollywood”, avalia, acrescentando que o neorrealismo italiano, após a Guerra, ajudaria a cimentar essa revolução na linguagem.

Por esse novo mundo que estava prestes a surgir, 1939 permanece como o totem de um tempo que desaparecia. Apenas uma década depois desse auge, Hollywood entraria em declínio, com os estúdios perdendo seu monopólio e dinheiro; as celebridades sendo acusadas no Macarthismo e as plateias se voltando para a televisão ou para novas cinematografias. “Claro que Hollywood sobrevive ainda hoje, mas tudo mudou com a decadência dos grandes estúdios”, conclui a professora.

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