Trajetória alternativa na arte

iG Minas Gerais | márcio maio |

Emoção. Caio conta que quando soube que trama era inspirada no longa “Sansara”, ficou radiante com o trabalho
Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Emoção. Caio conta que quando soube que trama era inspirada no longa “Sansara”, ficou radiante com o trabalho

Caio Blat até começou a fazer sucesso na TV na pele de um protagonista. Mas, ao contrário do que seu reconhecimento como o trapalhão Rafael de “Um Anjo Caiu do Céu” sugeria em 2001, o ator não teve uma carreira pautada por mocinhos. Em duas décadas dedicadas intensamente às novelas, o paulistano de 33 anos sempre se destacou interpretando personagens distantes, de alguma forma, da linha reta de um herói. Como o budista Sonan, de “Joia Rara”, um monge que decide largar o posto religioso para experimentar o amor de uma mulher. “Antes de gravar no Nepal, passamos uns dias em um templo em Cotia, em São Paulo, para entender como funciona. E li muito sobre o assunto. Já era um tema que me interessava, um tipo de pesquisa que eu curto”. Na trama, Sonan se preparou desde muito novo para seguir os ensinamentos de Ananda, uma participação especial de Nelson Xavier na história das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes. Depois da morte do mestre, ele veio para o Brasil em busca de uma de suas reencarnações, a doce Pérola, de Mel Maia. Mas acabou se apaixonando pela vedete Matilde, papel de Fabiula Nascimento. “Fiquei muito emocionado quando soube que seria assim porque a Amora Mautner (diretora geral) me contou que era inspirado em ‘Sansara’, um filme que me marcou demais”. Como você reagiu ao convite para interpretar Sonan? Amora me ligou e fiquei muito emocionado. Assisti a um filme há uns dez anos que me deixou encantado. Chorei muito quando terminou. Chama-se “Sansara”. Fala sobre um monge que larga o mosteiro porque se apaixona por uma mulher e vira plantador de arroz. Foi um dos filmes mais marcantes da minha vida. E a primeira coisa que Amora disse foi que esse personagem era inspirado nessa obra. Era quase a realização de um sonho para mim. Parecia mágica.</CS> Você já foi recordista de cartas da Globo e ganhou um protagonista muito cedo. Mas sua carreira não foi pautada nessa posição. Como analisa sua trajetória televisiva? Tive muita sorte porque fiz tipos diferentes. Alguns personagens bem marcantes, como o Abelardo Sardinha de “Da Cor do Pecado”. E isso acabou levando minha carreira para um lado de diversidade, da criação de tipos. Mesmo em “Caminho das Índias”, quando interpretei um papel com ares de mocinho, tinha a coisa de ser indiano, rolava uma cultura distinta, a tradição hindu, a meditação, enfim, era outro universo. Fiz alguns vilões, como em “Lado a Lado” e “Esplendor”. Acho que tive sorte porque essa variedade me instiga, me dá mais prazer e me tira da zona de conforto. Você também se dedica cada vez mais ao cinema... O cinema foi uma coisa que aconteceu na minha geração. Fomos privilegiados. A retomada aconteceu quando a gente estava ali. Atores dez anos mais velhos que eu não puderam ter essa carreira na sua juventude. Já tenho mais de 20 produções no currículo. É engraçado porque a gente cresceu tentando ter uma base sólida no teatro e, no meio disso, se manter na TV. De repente apareceu essa terceira possibilidade e uma galera se apaixonou. Acabou, infelizmente, me afastando dos palcos, porque uma peça me faria passar um ano sem filmar.</CS> O cinema hoje tem um peso mais importante para você? O cinema virou nossa cereja do bolo. O trabalho é artesanal, como no teatro, com muita pesquisa, ensaio e um dia inteiro para gravar uma única cena. E que depois fica gravado, não tem a efemeridade do teatro. Para uma peça, você pesquisa, faz um trabalho impressionante e só aquelas poucas pessoas que o assistiram vão guardar o resultado. Filmar nos dá a ilusão de permanência, de uma obra preservada para sempre. Tenho uma prateleira no meu quarto que já tem uns 20 DVDs de filmes que eu fiz. Fico com o maior orgulho de participar desse movimento de contar e, ao mesmo tempo, construir a história do meu país. E cinema era quase um espaço virgem a ser conquistado. A gente não quis abrir mão. Algumas pessoas que foram na minha frente já são diretores.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave